Wednesday, December 26, 2007


Meus dias de Leonarda, a que quer amor.

Thursday, November 22, 2007

Língua Esperta

Admiro sobremaneira os períodos de plena lucidez que habitam em mim.
Quando sou impelida a amar a pura face que se esconde em meus populosos labirintos internos, sou a fugitiva encontrada, mesclada com a figura permanente e meramente ilustrativa de mim, ilusória a ponto de ser verdadeira.
Não gosto do meu sangue. Luto para esconder minha verdadeira identidade de assassina.
Eu tive uma família pouco proibitiva. Meu primeiro cãozinho, Adam, costumava lamber-me entre as pernas quando todos haviam saído. Se intimidava de fazer isso em frente de outros, embora isso me trouxesse enorme prazer.
Sua língua, grande, ágil e áspera, me sugava de entre as pernas todo o líquido que eu ia derramando. Gosto da testosterona canina desde então.
Eu sofria debaixo de sua língua animal. Sofria de desejo. De comoção carnal.
Queria a todo custo casar-me com aquele bicho malandro que me apresentou definitivamente à feminilidade dissoluta da qual jamais consegui sair.
Já fiz tentativas frustradas com quinas, pés de mesa, agulhas, facões, controles remotos, espigas de milho, trincos, pás de batedeira, sapatos femininos, jarras e sifões de pia mas sem qualquer êxito proeminente.
Falta-me aquele pêlo grosso que envolve a cara terna, o gesto instintivo, a pata sábia.
O corpinho íngreme, a retidão de caráter e a imaginação sadia, os cãezinhos têm agora para mim um valor hierático aumentado.
Quando, por motivos de plena secura íntima, não me umedeço naturalmente o suficiente, dou-lhe de beber a água fria da geladeira na vagina.
Abandono-me à sua sede de cachorro, prévia e propositalmente cansado de vários passeios diurnos. Alimento-me a alma de transformar o corpo em ponte para a conexão verdadeira. Alimento-me da sede de meu cão e de sua língua esperta. Cão que mato logo após o oitavo orgasmo, o sagrado momento de mudar de raça.
Altero o pedigree pelo prazer.
Enterro no quintal corpo e fezes do animal, que me bebeu em doses únicas.

Sunday, November 18, 2007


Porque nem toda possibilidade deve ser postergada.

Saturday, November 10, 2007

DUCK and HEAD - Intimate Moving Cast

Companhia Silenciosa apresenta

DUCK and HEAD


Dramaturgia de Léo Glück e Ricardo Nolasco
Encenação de Léo Glück
Elenco: Giorgia Conceição e Ricardo Nolasco

Quando: 18/11/2007 (dom) às 19h.
Teatro da Caixa - Rua Conselheiro Laurindo, 280.
Info: 3321-1999 e
companhiasilenciosa@hotmail.com e www.ciasenhas.art.br

Wednesday, October 24, 2007

A truculência. É amor também.




A mera sinopse de uma vida dificilmente inclui os elaborados conflitos e as complicadas tensões da existência.
O marido fora congelado.
Na hora da revolução, um movimento qualquer começa.
Quem é o novo chefe?
O simplório grasnido da mulher não será abafado dessa vez. Não dessa vez.
Mesmo que deva, finalmente, ser internada pela esquizofrenia dos que amam demais.
DUCK and HEAD não deixa de ser uma autobiografia quase literal: sofra você as conseqüências no interior estreito do seu peito.






Companhia Silenciosa apresenta
DUCK and HEAD
Dramaturgia: Léo Glück e Ricardo Nolasco
Encenação: Léo Glück
Com: Giorgia Conceição e Ricardo Nolasco



Quando: 18/11/2007 (dom) às 19h.
Teatro da Caixa - Rua Conselheiro Laurindo, 280.
Info: 3321-1999 e
companhiasilenciosa@hotmail.com e www.ciasenhas.art.br

Thursday, September 27, 2007

RED MOMENTS

Marcada do meu próprio e irritante sangue, eu passo a odiar meus ossos.
Viver em meu corpo extrínseco de ladra estranha me gasta.
Viúva da minha própria e putrefata carne, não suporto a minha superfície.
Estou amando.
Estou amando mais.
Estou a mando teu.
Para onde meus olhos vão eu vejo minha brilhante e futura vida pagã gravada a fogo nas claras costas que Deus me deu.
Deus me odiou desde o início.
Me apontou o dedo torto e velho e disse: "Vai. Desgraça-te."
E cá estou. Bêbeda como uma condenada. O sexo úmido e desejoso dos longos dedos de quem me condena.
Pedindo a surra dos justos e a porra clássica de quem é feliz por gozar num buraco novo.
No sorteio da vida não pedi para vir intensa. Para vir vadia. Para vir certeira. Para distribuir confusão.
Na boca seca o sangue da noite mal dormida. Nos braços, o roxo, a cor preferida.
No coração a lembrança do que poderia ter sido.
A vista turva e cansada de quem na vida só busca amor.
Lúcido, louco, como for.
Mas que não resista jamais à simples idéia de não ser eterno.

Wednesday, August 22, 2007

Wednesday, August 01, 2007

MEMORABILIA

Sinta a velocidade!
A expansão dos ossos,
Dos tórridos desejos.
O cheiro de carne pútrida.
A bondade é morta,
Viva a bondade!


Eu não mudarei.
O volume da minha voz não abaixará.
Meus dentes serão para sempre os mesmos.
Meu amor corroerá o mundo.


E um novo, inteiramente inexpugnável, surgido da união de nossas costelas fracas, aparecerá junto com o sol, frio e reluzente.


E assim prosseguiremos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.

Monday, July 23, 2007

Quero escrever o borrão vermelho de sangue


Quero escrever o borrão vermelho de sangue.
Com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez.
Que não me entendam pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei.
Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua: nada tenho mais a perder.

Thursday, July 12, 2007

pernas longas não vão muito longe








Por que me sinto medíocre? Por que me pus a escrever qualquer coisa, assim, mediocremente?

Ora, que seja...

Assim estou! Assim me encontro. Escrevo para não adoecer, o papel sempre foi meu melhor amigo, e amante.

Estupidez, encontrar fluido vital nas palavras de gente morta.

Estupidez, querer para mim o que pertence ao mundo.

Estupidez, achar que qualquer coisa outra exista que substitua o afeto. O Simples Afeto.

Tristeza é sorrir por imaginar a tristeza longe.

Tristeza é querer a paz quando só houve guerra.

Tristeza é acreditar na segurança própria.

Tristeza é não aceitar somente o afeto.

Meu medo é descobrir-me a mim mesma, é descartar qualquer possibilidade vinda de mim, é negar que a pessoa mais importante para mim sou eu.

Quero amar, mas não cegamente.

Quero meu amor livre.

Quero meu coração enternecido por ver a liberdade do meu amor.

Quero ser livre.

Quero amar tudo que vejo. E viver ainda um pouco para poder contar.

Quero meu coração dividido igualmente nos pratos de sopa dos mendigos, aquecendo a vida intensa das ruas.

Quero poder me enxergar nos olhos frios do mundo.

Saber dividir meu amor profundo.

Tuesday, July 10, 2007

Monday, June 18, 2007

Eu não sou uma boneca de borracha!


Quando meus olhos resolvem falar, meu coração se cala.

E eu quero sugar a medula do mundo!

Desenvolver novas técnicas de divulgação do amor, porque a loucura, boa marketeira, se divulga por si própria.

Sinto o feto de Deus revirar minhas entranhas, semente divina.

Mantenho a trilha florida à distância, por hora prefiro a companhia dos espinhos.

Sendo eu mesma uma bandoleira nata, obviamente que sempre ajudo na fuga dos pistoleiros.

Sangue cigano, espírito nômade, fui assassinada com seis tiros a queima-roupa.

Vivo a vida, seqüência interminável de dias recheados de confusão mental plena e apoteótica.

Mas não se pode ser uma débil mental hoje em dia, pode?

Desde quando operará a humanidade sobre matéria envelhecida?

Matéria envilecida.

Minha mediocridade morreu.

Em todas as esquinas vêem-se montes de lixo sendo atacados por gatos esqueléticos matando uma fome insaciável.

Meu quarto cheio de folhas secas, uma mulher que soluça na escuridão é uma mulher precisando de amor.

Estou sendo atacada.

Logo eu, a sertaneja!

Logo eu, cujos dentes formam a escadaria perfeita para o teu amor.

Logo eu, tão estimulada.

Eles não conseguirão me deter!!

Eu juro!!!

Continuarei a ser tua humilde criadinha, numa saga de luxúria, violação, culpa e remorso.

De vinho, terra e sangue.





Eu sou Alice.

Este território é meu.

O País só é das Maravilhas porque a referência sou eu!

Eu sou Alice, isto me basta.

Monday, June 11, 2007

PEÇA PERDÃO


Um - O que você faz agora, que meu coração está a seus pés?


Dois - Chuto?


Um - Não conseguiremos limpar a sujeira.


Dois - Disciplina e resolução. Não há mais cegueira. Talvez nem energia.


Um - Recolha a imundície quando sair.


Dois - Antes que nos denunciem.


Um Ri.


Dois - Não temos mais material para a reconstrução.


Um - Meu Deus, acabou tudo?


Dois - Acabou.

Wednesday, June 06, 2007

??????Hermenêutica??????




Do Sacrifício de Abraão ao Legado de Charles Peirce





No princípio era uma pata gigante.

E ela se fez pato.

Ela se fez cabeça.

Se fez eterna.





HERMES.
they tried to make me go to rehab and I said no no no...

Tuesday, May 29, 2007

A MAIS RECENTE LEITURA DRAMÁTICA DA COMPANHIA SILENCIOSA!

EL MURCIÉLAGO DESENFRENADO
estruendo de Léo Glück




A história da Inglaterra, como a de tantas outras terras, é um terreno intrincado de história e lenda. A história do mundo, como cartas sem poesia, como flores sem perfume e pensamentos sem imaginação, seria algo muito seco sem suas lendas; e muitas delas, embora descartadas cem vezes pelas provas, merecem ficar pelo que são.



Atenção: Este espetáculo é uma obra de mentalidade enferma.


Dia> 03 de junho de 2007.
Hora> 19.00.
Local> SESC Água Verde.
Endereço> Av. República Argentina, 944.
E-mail>
aguaverde@sescpr.com.br
Fone> (41) 3342-7577.
Info> (41)99959198/(41)84088805
companhiasilenciosa@hotmail.com

Friday, May 04, 2007

TRACK # 1 e/ou La donna è mobile





Acabo de almoçar.

Acabo de sentir mil pontadas em meu mecanicamente fragilizado coração.

Acabo de penetrar fatalmente no fantástico mundo da iluminação.

Acabo de arrancar as vestes e rasgá-las e pisoteá-las.

Acabo de destruir os dentes no trinco da porta da sala.

Acabo de tesourar meus cabelos e queimá-los no fogão.

Acabo de cindir meu pensamento.

Acabo de ver a hora e soltar um grunhido imundo.

Acabo de cair da cama.

Acabo de deixar a inveja me corroer por dentro.

Acabo de aprender desde muito cedo a não ter certezas.

Acabo de sempre desejar que alguém me beijasse os defeitos.

Acabo de chupar a pata traseira de meu felino, que não gostou nada.

Acabo de bater na vizinha.

Acabo de começar a masturbar-me. A babar pela boceta.

Acabo de deixar-te.

Acabo de deixar-me. Esvaziar-me. Esvair-me.

Acabo de deixá-lo pegar meu sexo entre as duas mãos.

E o jeito que ele pegou, tão decididamente, com tanta macheza, foi como um toque do homem das cavernas que existe em todos nós.

Acabo de me envolver.

Acabo de decidir ir a uma colônia de artistas.

Acabo de perder uma de minhas lentes de contato.

Acabo de comer mexericas velhas.

Acabo de querer ficar morena, uma bela morena do Sul.

Ricardo ficou em êxtase, agarrando-me como se fosse me quebrar, curvando-se sobre mim, com os joelhos no meio dos meus, o pênis ereto.

Meu casaco estava aberto, meu vestido era fininho, e a mão estava roçando agora levemente através do vestido bem na borda do sexo.

Não me afastei.

Fiz um leve movimento para alçar o sexo na direção dos dedos.

Senti uma onda de prazer.

Atirei as pernas por cima dos ombros dele, bem alto, de modo que ele pudesse mergulhar dentro de mim e assistir ao mesmo tempo.

Ele queria ver tudo. Queria ver como o pênis entrava e saía brilhando, firme e grande.

Ergui-me sobre os punhos para oferecer ainda mais meu sexo às investidas dele. A seguir ele me virou e colocou-se em cima de mim como um cachorro, metendo o pênis por trás, com as mãos em concha sobre meus seios pontudos, acariciando e metendo ao mesmo tempo.

Ele estava incansável.

Não gozava.

Então foi que ele começou a meter com violência, avançando comigo para o crescente e selvagem ápice do orgasmo, e aí eu dei um grito.

E ele gozou setenta mil litros do seu mais puro leite do amor dentro de mim.

Acabo de pensar que a mentira e a hipocrisia são as únicas moedas válidas em nossa sociedade.

Acabo de pensar na América sadia.

Acabo de pensar nos parcos instrumentos de Galileu e Copérnico.

Acabo de crer em Deus, meu último e mais trôpego suspiro.

Tuesday, April 24, 2007

PUBERDADE ADIADA


Agora, e só agora, eu a tenho.

A dura certeza de que as coisas pouco ou não faladas jamais serão resolvidas.

O amanhã não vem até que seja tarde demais.

Tento, com isso, que minha sensibilidade saia pouco ferida da batalha.

Estrada íngreme dos íngremes pensamentos, tenho, para sempre, de a percorrer.

Se a História sempre exige um seio desnudo, é o que irei fazer agora.

Por que as lágrimas sempre estão envolvidas?

Não é de bom tom beber ritualisticamente.

O dionisíaco foi banalizado por polemistas dos anos 60, que o transformaram em brincadeira e protesto.

Maconha na fila do piquete. Sexo no jardim de infância. Regressão benigna.

Mas o Grande Deus Dioniso é a barbárie e a brutalidade, um extremo de torsão que rasga, mutilação, esquartejamento, contrações uterinas, energia desenfreada, louca, rude, destrutiva.

Dioniso é o novo, emocionante: varrendo tudo para começar de novo.

Dioniso é a única saída inteligente para o pensamento. Apolo é mera embalagem.
Eu sou artista, afinal.
Eu mereço meu tempo separado, meu espaço reservado, meu espírito inflamado.
Eu mereço tudo. O que me vem. Sem amaciante.
Meu cu meu cu meu cu.

Tuesday, April 10, 2007

A FORNICADORA

parte II




De todas as minhas tardes, esta é a pior. A mais longínqua, a mais promissora, a mais lúcida. Um dó, ainda sou Diana, a açucareira. O aumento mamoplástico de Jane Fonda é, e sempre foi, inviável. Todo aumento mamoplástico é inviável. Toda Jane Fonda é inviável.
O pênis de King Kong nunca me interessou, mas por outro lado, o que me interessava era como aquilo poderia caber em sua escolhida. Roubada atrozmente.
Mas minha boca se enche de saliva cremosa quando penso na pica dura do meu marido.
Tarde repleta de pastos opacamente verdejantes e eu pensando na agressividade da vagina funcional.
Frio mortiço a me visitar os ossos e os olhos vidrados imaginando todas as suturas futuras, como filme noir.
Não nasci para ser mãe. Odiaria repetir as infâmias maternas que um dia se operaram sobre mim. Não suportaria ser odiada por um filho, e sei que o seria.
Ser mãe é ser odiada.
Fico aqui pensando nos motivos porque minha bunda é como é. Nas fotos ela parece enorme mas na vida real é mediana, ordinária, quase imperceptível apesar de bem utilizada.
Não sou uma putinha qualquer. No máximo uma hi-tech sci-fi whore compenetrada. Daquelas que gemem bem alto quando estão sendo comidas e pedem mais força, mais ardor, mais no fundo.
Quero inchar o útero gelatinoso.
Daquelas que os homens têm que tampar a boca ou esmurrar para deixar desacordadas, porque a ética da convivência social não permite o atentado atualmente, principalmente contra o pudor. Partindo da premissa de que todos, invariavelmente, detêm o pudor, é claro.
Todos, bando sórdido de robôs velhos e obsoletos. Não há nada mais patético que um robô ultrapassado.
Máquina sobrepujada, falsificação dos sentidos, dogma espúrio.
Se a estrutura da vulva possui lábios que a fecham, por que haveria um membro estranho, destituidor de prazer, de querer atravessá-los, como se rasgasse furiosamente as pesadas cortinas de veludo de um delicioso cabaré anos vinte?
E mesmo quando estou segura de mim eu surto. Porque surtar é preciso.
Comecei ontem a sentir leves dores no baixo ventre, onde, minutos antes, ele havia me tocado brutalmente.
Serei, eu também, parte louca desse mundo caduco? Degenerado.
Não é porque acabo de conhecer o amor verdadeiro que abandonarei a verdadeira loucura.
E pensar que tudo prosseguirá sem mim quando eu me tiver ido me faz querer gozar...
Gozar despudoradamente.
Na cara do mundo.
Gozar desesperadamente.
Gozar gozar gozar...
Não me banhei, sua porra ainda está em mim, colando mais e mais minha calcinha ao meu corpo. Olho para a mancha de sêmen em meus lençóis.
Estou sozinha com o sêmen.
Lembro de mil línguas afiadas e bífidas a me chuparem o rabo piscapiscante.
Meu maior problema não é o gênero. É o medo.
Me pergunto se algum dia saberei o meu lugar no planeta enquanto passo batom vermelhíssimo na xoxota.

Saturday, March 31, 2007

Thursday, February 15, 2007

Sem Título

No espelho do banheiro me olhei e não me vi. Me questionei, me tomei de assalto, me pus a tentar. Unhei sua superfície, trinquei sua borda, parafraseei suas conexões. Abri a torneira e vi a água jorrar, para fora da pia, para fora da idéia, simples e indomável elemento. Enquanto tentava utilmente inserir minha insaturável língua no pequeno e tortuoso orifício da torneira, água saindo, eu pensava em como é comezinha a natureza. Que precisa ser presa para se fazer entender.
Sim, eu estava chupando o metal da torneira, a boca cheia de misturas, a cabeça – que eu não voltaria a adornar jamais – pensava em fugir. Eu sentia o borbotão, eu negava a possibilidade de calçar os pés, eu dominava o meu fraco poder de sedução interior. Sentei, no chão frio e respingado. Tirei a blusa e acariciei os seios mínimos, pendurados. De bruços já, me deixei invadir solenemente pela inércia cataclísmica dos seres. A torneira ainda aberta: a água, voluntariosa e acomodada, pingava por não lhe haverem dito para não pingar. Encharcava por baixo minha barriga nua, minha consciência nua e despudorada.
Experiência dos cometas esporádicos, eu me deixava judiar pela tangibilidade das coisas, pela confluência de todos os meus pontos suscetíveis. A água cremosa que me escorria era marrom, de sujeira, de cisternas não lavadas, de conjunção extremamente humana. Meu maior erro (o que me levará à tumba final) é ser demasiadamente humana.
É pena, mas sou demasiado humana para viver.
Não posso me sentir parte desse sistema terroso e baço, não devo pertencer a esse mundo de esquivos.
Subintrante, a água excrementosa me perpassa, me sabatina, me começa e me termina. E eu permito, passivamente, subjacentemente, com a prudência ética dos descarados. Me permito imundiciar pois é somente assim que minha pureza poderá surgir, somente assim me sentirei limpa novamente, coordenável novamente.
E foi ao dar descarga que vi uma de minhas vidas indo embora pela primeira vez.
Nessa hora não me interessa pai nem mãe, sempre irracionais, filho nem sal da terra. Distribuo, sem pejo, impaciência aos azulejos, que me compreendem e me comovem. Tento inverídica me transmutar no sabonete rosa, no estuque sulcado (pela indomável água de cima: infelizmente percebe-se o padrão), no chuveiro pouco funcional e utilitário. Não é um simples banho o que me limpa. Não é um simples beijo o que me determina feliz.
É um desejo de matar a água o que me desce pela garganta, o que lava minha louça, o que leva minhas fezes, o que dá brilho à minha pele. A pobre água, em si, é gradual urgência dos sentidos, maleável, flexível e extinguível.
Tão menor que o fogo, coitada.
No chão do banheiro, irrecorrivelmente pelada, me enfeito das porcarias que o planeta joga fora. Me enfeito de mim mesma no espelho quebrado, me enfeito do piso gelado que me acalma os nervos e o coração agitado. Gostaria, aqui, de engolir a luz. Bocal e fiação, fuselagem inerente, comandos facilmente obedecíveis. Gostaria de ser as minhas próprias necessidades, de poder cair solta e leve no lago negro das impudicícias, de manter meu rabo aberto para qualquer eventualidade de defesa.
Gostaria de ser negra como parede suja de carvão, de odiar o limpo e o belo unicamente por ser a errada, a que não se encaixa, a que carrega o desprezo. Gostaria que minha hidráulica fosse combatível, contornável e pouco certeira, que os meus membros não soubessem o que fazem.
Tenho sempre (e tive sempre) comigo algo que me enganar, ludibriar, engodar e distorcer todo e qualquer lapso meu de generosidade natural.
Mas o que é natural em mim? Possivelmente até o Deus em mim (se há) é artifício solitário de quem almeja a bênção da felicidade passageira. Sou ingênua, sim, ao somente tolerar frações de equívoca felicidade.
Mas é do que sou capaz, por hora.
Gosto de chorar no banheiro, que é o que faço sempre quando acordo, se acordo; de confundir nossas incontroláveis águas, nossas ruínas prestes a desabar, nossas vocações santificáveis de melhorar o ambiente, nosso anseio pelo reconhecimento da Terra.
Eterna água caída, derramada, injuriada e lesiva: é assim que sou, aquela que vaza, inunda e então evapora, seca. E carboniza as adjacências. Mas que fatalmente satisfaz às leis e regras de um tempo arquitetado para abrigar nossos sonhos desfeitos, mero asilo das efervescências decadentes em que nossa mente passeia sem cautela.
Se essa vida não me acompanha, deixo o bolo de carne para trás, se a alma egoísta não me acompanha, deixo-a para trás e sigo, matéria perdida no mundo. É que não admito tropeços no meio do percurso.
É que gostaria de poder jazer ao lado dos que morrem e não saem da nossa cabeça.

Friday, January 26, 2007

Atributos de minha matéria viva



Não estou cansada, apesar de não ter descansado por um segundo sequer. Da altura do meu edifício, vejo o torturante sol derreter a vida lá embaixo. E me é extremamente agradável que eu não esteja lá, sendo derretida junto, mera parte ativa da falência lenta e múltipla dos órgãos do planeta, emoldurado pelas esquadrias flácidas de minhas janelas.

Não há calor, embora haja ausência de frio. Todos os meus signos visuais estão vazios. E úmidos, e latentes. Acabo de comer e sinto fome; fome de uma era, de uma época, de um tempo, intangível e mudo. Não me sinto à vontade com nada e em nada, borbulho internamente como as águas calmas de um rio sonolento. Estou sozinha, decrépita, falida. As injúrias me deixaram. Sorrio levemente, como quem acaba de destampar uma panela cheirosa e promissora. O ar, que fatalmente me rarefaz, inunda narinas e boca com sua petulante e sagaz inexistência. Acabo de ter um orgasmo sacrílego. Pausado, etéreo e nulo. Sou estéril por convicção própria e plena, não temo a danação terrena.
Sempre adorei divulgar idéias abstratas e tolas, despreocupadas e chorosas, mas sagradas, mesmo que falsas. Nunca admiti erosivas deslealdades internas. Nunca soube receber amor de graça, nunca deixei a verdade me adentrar.
Olho a cama, desfeita. Olho o mundo. Não vejo conexão, não tenho tremores, estou calmamente perturbada. Penso nas estradas que estou pisando, nas tintas que me colorem, nas mãos que me pegam. Sinto uma falta.
Estarei longe de você, meu amor, somente durante a tarde. Mas é como se a vida entrasse em suspensão eterna, hibernando pela tua chegada, pelo teu aparecimento em meu dia, pela tua entrada em meu corpo.
Corpo único, fundível e manipulável, irrefreável em seu desejo de ser preenchido, completado, barbarizado e satisfeito.
Se não deixo Jesus penetrar em meu coração, é porque te permito — e só a você — desempenhar tamanha tarefa: não tenho no coração suficiência para ambos. Mesmo que você erre de buraco e entre por outro lado, mais material e complacente. Te deixo me insuflar a imponderável fé pela minha abertura mais macia e quente. Pela minha porta mais desejosa e límpida. Pelo meu corredor sem batentes nem corrimãos, sem qualquer resguardo, de solo brilhoso e infértil. Pelo meu mais sequioso sexo, da tua fertilizante e assertiva tentativa de me inspirar.
Ao pé de quem amo eu me deposito, meu amor.
Deixar de orar pode ser saída honrosa, e, ainda que descamada, desgostosa e desgastada, consigo perseguir a sombra de alguns ideais. Sim, já não são assim tão nítidos ou facilmente perceptíveis, mas, mesmo assim, devo a eles minha empobrecida obediência.
Implacável maturação? Lógica intransponível? Razão despossuída ou somente amor? Se não sou esperta, ao menos colonizada eu sou. Ou serei eu mesma a colonizar meus fãs subterrâneos? Amores subterrâneos? Domino o underground de mim? Sou obrigada, levada, trilhada a matar o melhor de mim?
Se volto no tempo, é por falta de amor próprio, por intermitência persistente, pela permanência do dúbio, do ambíguo em mim. Se me adio, estou confundindo as portas de emergência, as latas de lixo, as mágoas não curadas em mim.
Eu te fiz pensar que não poderia me entender, meu amor. Minhas mãos e meu coração te iludiram enquanto eu, lépida e sórdida, sorria e beijava tua língua rápida e inutilmente prazerosa. Eu chorei quando quis te fazer sorrir, gargalhei quando te vi chorar e todos os meus planos diabólicos de te monitorar os passos e a respiração foram bem sucedidos. Eu tive sorte. Posso ver em teus olhos a decepção do amor verdadeiro.
Sou vaga, eu sei. Sem objetivo, sem outra face a oferecer. Facilmente excitável, meu amor, como você: sou criança ou cão diante de quem se chacoalha o chocolate possível. O provável doce da eternidade, o infeliz amargo que nos percorre pelo atávico de nós. O limão e o açúcar ainda por vir.
Já não tenho mais venenos nem poções do mal. Sou truncada ainda mas, afinal, quem muda tanto assim?
Não desejo mais o pernicioso fim, não incito mais o total defloramento de mim. É pena eu não ter comigo aqui nenhuma barata qualquer com quem tentar irresistivelmente me comparar, é pena eu estar sem fontes, identidade e referência, fluidos e geradores de inovações. É pena as possibilidades terem morrido. É pena o amor, doído, ter nascido. É pena o globo girar mais rápido e mais imundo.
Desligada durante o processo, estou sem nome, sem data e sem fisicalidade qualificáveis. Como consigo ainda tossir?
Estou sendo inventada. Não do nada mas repaginada, aperfeiçoada, minha mecânica sendo revista, dilatada, vaporizada e talvez até poluída. Estou sendo tecida, textura redimensionada; meus bancos de dados e diretórios sendo alargados e compactados; meu espaço está crescendo; tessituras esticadas, pele repuxada e reaproveitada; todo o meu disco rígido em expansão, todo o meu disco mole pendurado, secando ao sol; em meus ossos uma camada de ferro; nos músculos uma camada de amor, deliciosamente balouçante; na cabeça, apagados os males e os benefícios antigos, você, meu amor, acompanhando todo o resto.
Não julgo a falta de amor uma carência, apenas não estou mais apta a opinar.