Tuesday, April 24, 2007

PUBERDADE ADIADA


Agora, e só agora, eu a tenho.

A dura certeza de que as coisas pouco ou não faladas jamais serão resolvidas.

O amanhã não vem até que seja tarde demais.

Tento, com isso, que minha sensibilidade saia pouco ferida da batalha.

Estrada íngreme dos íngremes pensamentos, tenho, para sempre, de a percorrer.

Se a História sempre exige um seio desnudo, é o que irei fazer agora.

Por que as lágrimas sempre estão envolvidas?

Não é de bom tom beber ritualisticamente.

O dionisíaco foi banalizado por polemistas dos anos 60, que o transformaram em brincadeira e protesto.

Maconha na fila do piquete. Sexo no jardim de infância. Regressão benigna.

Mas o Grande Deus Dioniso é a barbárie e a brutalidade, um extremo de torsão que rasga, mutilação, esquartejamento, contrações uterinas, energia desenfreada, louca, rude, destrutiva.

Dioniso é o novo, emocionante: varrendo tudo para começar de novo.

Dioniso é a única saída inteligente para o pensamento. Apolo é mera embalagem.
Eu sou artista, afinal.
Eu mereço meu tempo separado, meu espaço reservado, meu espírito inflamado.
Eu mereço tudo. O que me vem. Sem amaciante.
Meu cu meu cu meu cu.

Tuesday, April 10, 2007

A FORNICADORA

parte II




De todas as minhas tardes, esta é a pior. A mais longínqua, a mais promissora, a mais lúcida. Um dó, ainda sou Diana, a açucareira. O aumento mamoplástico de Jane Fonda é, e sempre foi, inviável. Todo aumento mamoplástico é inviável. Toda Jane Fonda é inviável.
O pênis de King Kong nunca me interessou, mas por outro lado, o que me interessava era como aquilo poderia caber em sua escolhida. Roubada atrozmente.
Mas minha boca se enche de saliva cremosa quando penso na pica dura do meu marido.
Tarde repleta de pastos opacamente verdejantes e eu pensando na agressividade da vagina funcional.
Frio mortiço a me visitar os ossos e os olhos vidrados imaginando todas as suturas futuras, como filme noir.
Não nasci para ser mãe. Odiaria repetir as infâmias maternas que um dia se operaram sobre mim. Não suportaria ser odiada por um filho, e sei que o seria.
Ser mãe é ser odiada.
Fico aqui pensando nos motivos porque minha bunda é como é. Nas fotos ela parece enorme mas na vida real é mediana, ordinária, quase imperceptível apesar de bem utilizada.
Não sou uma putinha qualquer. No máximo uma hi-tech sci-fi whore compenetrada. Daquelas que gemem bem alto quando estão sendo comidas e pedem mais força, mais ardor, mais no fundo.
Quero inchar o útero gelatinoso.
Daquelas que os homens têm que tampar a boca ou esmurrar para deixar desacordadas, porque a ética da convivência social não permite o atentado atualmente, principalmente contra o pudor. Partindo da premissa de que todos, invariavelmente, detêm o pudor, é claro.
Todos, bando sórdido de robôs velhos e obsoletos. Não há nada mais patético que um robô ultrapassado.
Máquina sobrepujada, falsificação dos sentidos, dogma espúrio.
Se a estrutura da vulva possui lábios que a fecham, por que haveria um membro estranho, destituidor de prazer, de querer atravessá-los, como se rasgasse furiosamente as pesadas cortinas de veludo de um delicioso cabaré anos vinte?
E mesmo quando estou segura de mim eu surto. Porque surtar é preciso.
Comecei ontem a sentir leves dores no baixo ventre, onde, minutos antes, ele havia me tocado brutalmente.
Serei, eu também, parte louca desse mundo caduco? Degenerado.
Não é porque acabo de conhecer o amor verdadeiro que abandonarei a verdadeira loucura.
E pensar que tudo prosseguirá sem mim quando eu me tiver ido me faz querer gozar...
Gozar despudoradamente.
Na cara do mundo.
Gozar desesperadamente.
Gozar gozar gozar...
Não me banhei, sua porra ainda está em mim, colando mais e mais minha calcinha ao meu corpo. Olho para a mancha de sêmen em meus lençóis.
Estou sozinha com o sêmen.
Lembro de mil línguas afiadas e bífidas a me chuparem o rabo piscapiscante.
Meu maior problema não é o gênero. É o medo.
Me pergunto se algum dia saberei o meu lugar no planeta enquanto passo batom vermelhíssimo na xoxota.