Thursday, May 30, 2013

Com o relho no lombo de mulher

"Oh, querido meu, só te direi que o amo se me estourares o rabo até a última prega", foi a resposta que me ocorreu em meio ao estardalhaço dos metais, a produção em série dos carros, o alongamento a que o corpo masculino recorre diante da falta de trégua da natureza. Apenas em pensamento, no entanto, enquanto da parte da ação física o homem já me arrancava as roupas a dentadas e rasgações, socou-me a cara com o pênis ereto e viril, que esfregou com violência nos bicos dos seios endurecidos, acompanhou o tesão que produzia bem de perto com socos, tapas e mordidas que já faziam a existência desfibrilar. Eu pensava nas amigas feministas e na cultura do estupro durante o tempo em que era varada pela caceta animal em pleno vigor e abundância terrenos, eu dava risada entre uma contração muscular e outra, quase desfalecida da parafernalha da reprodução que queimava no meio das minhas pernas, não reconhecia borda alguma, entrava e saía à minha revelia para, ao final, cuspir a porra vital sem sinal algum de agradecimento. Tremente, pensei em fugir. Mas não poderia, aquilo se repetiria, era sina, era para o que viera, disse a que veio. Veio pro beijo socado com angústia, a mão espalmada nas nádegas brancas, firmes e frágeis, o relho no lombo de mulher. O sexo xamânico transcendental, a piada pronta, o grito de rebeldia deveria permanecer contido provisoriamente. Quando estourasse, todos saberiam o que é o amor.

Saturday, April 20, 2013

O Onipotente

Deus são as leis do universo. Deus é o cosmos se movimentando. Deus são as galáxias cheias de anéis. Deus são as estrelas ascendentes, cadentes. Deus é gás. Deus é poeira. Deus é buraco negro que a tudo engole, é piche. Deus é energia transcendental. Deus é Andrômeda. Deus é Atlântida. Deus é Pompeia, Chicago e Nagasaki. Deus é a arte, o sublime e o grotesco. Deus é Zeus. Deus é Iansã. Deus é uma nebulosa louca. Deus são as criancinhas ranhentas, a chuva torrencial, a água eterna enquanto dure, o sol subindo e descendo, o inigualável verde das plantas, o corpo em movimento, os céus azuis, vermelhos e acinzentados, as infinitas mudanças dos corpos cavernosos. Deus é a margarida, o porco espinho. Deus é a Beyoncé e a Valesca Popozuda. Deus é catar cavaco. Deus é o funk carioca. Deus é a guerra. Deus é a polícia. Deus é o amante traidor. Deus é dívida. Deus é o papel. Deus é a tinta. Deus é o sorvete de pistache. Deus são as aranhas marrons. Deus é o western spaghetti do Clint Eastwood. Deus é a Tailândia. Deus é o pastel da feira. Deus é o dinheiro. Deus é o cabelo anelado, o nariz adunco, o mamilo e o ânus rosáceos. Deus é a porra jorrando louca pra fora do pau. Deus é o suco da buceta. Deus é o meu orgasmo múltiplo. Deus é a queima da Bíblia, mas a paz, não








Deus não é a paz.

Sunday, December 30, 2012

Adeus, 2012! A vida é bela.

Eu ando pensando. Eu vivo pensando. É certo que sinto mais do que penso mas eu penso mesmo assim, um pouco agora, um pouco mais tarde, um pouco no meio. Mais um fim de ano se inicia, ou se finda mais uma possibilidade de começo de ano? Nem sei mais. Quero agradecer publicamente a tudo de bom e positivo que me aconteceu durante o glorioso ano de 2012. Conheci lugares incríveis e que começaram a me fazer falta imediatamente após o instante em que os deixei. Vivi intensidades inexplicáveis em cima de vários palcos do país mais belo do mundo. Por eles eu suei, cantei, dancei e rebolei a bundinha branca. Por eles eu disse coisas que estão além de mim e de você, falei da perenidade das coisas, falei da infinita capacidade que as coisas tem de se extinguir, de se modificar, de mofar, encontrei pessoas incríveis, talentosas, gente a quem quero passar a admirar cada vez mais pela constância, pela arte, pelo traquejo, pelo sorriso, passei por gente a quem quero deixar, silenciosamente, para trás, sem alarde, sem fanfarra, sem estardalhaço, falei da capacidade de amar, falei do amor, do meu e do amor dos outros, fui eu mesma, fui outras, fiz coisas minhas e fiz coisas que o mundo ordenou. Eu sou uma mulher feliz e realizada. Eu amo a minha profissão e eu sei amar. Fui diretora, fui atriz, fui dramaturga, tudo junto, misturado, um por cima do outro, mexendo no outro, alterando o outro, explodindo e abençoando o outro. Eu aprendi a amar. Eu aprendi a gozar, dos pequenos movimentos da pélvis à grandiosidade dos livros lidos, das mãos do homem que me segura, excitado, aos grandes arroubos de dores e delícias que a humanidade engendra, eu aprendi a ouvir as sandices terrenas e perscrutá-las, eu aprendi a ler com parcimônia as ideias mais tortuosas que alguém já inventou de pôr no papel. Eu aprendi a respeitar as promessas de amor como criança, como cão, eu aprendi a entender o coração batendo forte por se aproximar de quem ama, aprendi a acalmá-lo nos beijos, intercalados de um tempo preenchido de simplicidades diárias, às vezes tolas, às vezes inúteis, o enfadonho alimentar diário do corpo em detrimento da alma, aprendi a acender o meu fogo na boca do homem que amo, em um nono andar da cidade maior do país e aprendi a apagá-lo temporariamente quando o avião levanta seu inefável voo e molha-me no rosto das lágrimas mais tristes que uma mulher já chorou nessa terra. Eu tenho a sorte dos amigos, sorridentes e solícitos, eu tenho o pequeno azar da esquisitice dos inimigos, que olham com a pura cara da inveja que soçobra no vício, a inveja preguiçosa dos idiotas. Eu tenho a pele mais deliciosa que a criação já utilizou para recobrir o osso de alguém, a cabeça mais maluca e temperamental que tem aquelas pessoas que fazem a diferença: eu tenho certeza absoluta da diferença que fiz na vida de cada qual por quem passei, ora sorrindo, ora gritando. Eu tenho o cabelo dos gregos, dos negros, dos loucos de amor, dos curtos e grossos, daqueles que saltam do sofrimento à alegria em um piscar sapeca de olhos. Eu tenho a felicidade de amar, e querer sempre mais. Em 2013 você irá me ver, irá ouvir falar de mim, porque me ver e ouvir falar de mim é coisa que a natureza nos deu, ao mundo, a todos, e coisa pela qual devemos agradecer. E lembre-se: eu te enfeiticei e a revolução não será televisionada!

Wednesday, December 05, 2012

A retrô-futurista Valsa nº 6 curitibana chega ao centro financeiro do país!

Depois de passar pelo Rio de Janeiro, Curitiba, São Luís do Maranhão e Salvador, Bahia, a retrô-futurista Valsa nº 6 curitibana chega à capital paulista, centro financeiro do país, para as duas últimas apresentações de 2012. No Teatro do Centro da Terra nos dias 12 e 13 de dezembro, às 21 horas, Rua Piracuama, 19, no Sumaré. 



Monday, July 30, 2012

"Valsa nº 6" no evento "A Gosto de Nelson", no Rio de Janeiro!

No mês em que se comemora o centenário de nascimento do escritor recifense-carioca, morto em 1980:


"Valsa nº 6", de Nelson Rodrigues;

Direção de Gustavo Bitencourt;

Com Leonarda Glück;

Estreia Nacional dia 25 de agosto de 2012;

Teatro Glauce Rocha - Rio de Janeiro - RJ;

Expressão Produção;

Vídeo: Leco de Souza 

right after (update): Curitiba!





Friday, May 11, 2012

Por um amor de novela

Meu sapato já furou, minha roupa já rasgou, eu não tenho onde morar. O único homem a quem eu seria eternamente fiel me disse não, fidelidade é qualidade de cachorro. Eu, na minha condição intrínseca, com todos os meus problemas, traumas e limitações, amaria, amo, mais do que qualquer outra no planeta. Amo porque me disseram que isso eu não podia, não me era permitido. Amo porque é a minha natureza. Sei que não existe nada disso de amor perfeito, mas ainda pude, brevemente, sonhar. Amar, como uma garota que enlouqueceu e ficou selvagem. Amor de confiança, seja lá o que isso for, é uma vez só. Meu sapato já furou, minha roupa já rasgou, eu não tenho onde morar. 

Thursday, February 23, 2012

Florrie no Festival de Curitiba 2012!


O monólogo FLORRIE, A IMPORTÂNCIA EXTREMA, da Naco de Víbora Companhia de Artes, fará parte da programação do “Coletivo de Pequenos Conteúdos”, no Fringe do Festival de Curitiba 2012, nos dias 29/03/12 às 19 horas, 30/03/12 às 16 horas, 31/03/12 às 22 horas, 01/04/12 às 13 horas e 02/04/12 às 19 horas, no TUC (Teatro Universitário de Curitiba), na Galeria Julio Moreira, em Curitiba – Paraná. Os ingressos já estão à venda nas bilheterias centrais do Festival nos Shoppings Mueller, Barigüi e Palladium por R$ 20 e R$ 10!




Mais informações na página virtual do espetáculo no Festival de Curitiba clicando aqui!

Wednesday, January 18, 2012

Quando um dentro do outro é muito, o dente na carne, o pau no cerne

Todo rito de passagem requer percepção sensorial sensível, um jogo de
estímulos e reações físicos e metafóricos lançado no tempo-espaço
infindável das possibilidades, das criações, da absorção mutante, muda
e lenta que se dá nos ossos, sem ela esse pó não irá brilhar em um futuro
próximo. Quando uma porta se abre, uma nesga de tempo vaza para
fora do perímetro sensível, se espraia, expande, se ampliam os plexos, a
situação kármica se aquece e o movimento aparece. É claro que
precisamos de um intelecto rebelde para descortinar ou mesmo
determinar o fenômeno, apreendê-lo sensivelmente nos próprios órgãos
vitais, respirar o ar intermediando a situação por aquilo que
conseguimos dela depreender no pensamento, que é a organização
formal de um sentido utópico e por isso mesmo irrealizável e, mais do
que isso, por aquilo que ela em si nos provoca no corpo, na pele, na
figura humana instável e possivelmente fatalista em cujas terminações
nervosas vai parar o registro de todas as transmissões neuroquímicas
de que somos capazes.
Freudiana é a psicologização de uma família, de suas relações
mercantis, suas mal enjambradas searas de afeto nocivo e desdenhoso,
seu desenvolvimento mediano e moroso, qual criança insaciável que
ruma para o nunca doce de sua vida. Prefiro a morte do que um caso de
amor morno e sem paixão: é aqui que ocorre a ritualização de uma
abertura, corporal, sazonal, telúrica, intelectual, espetacular, que faz
rolar de prazer o meu coração.
O mundo é uma comunidade de interpretação que se concretiza
progressivamente, o ritmo de um sabor, o deixar-entrar, deixar-ser de
um corpo coletivo cujas relações se baseiam em construção e
desconstrução eternas, cíclicas e lineares a um só tempo. Quando eu era
pequena Hollywood era um exemplo, um modelo que meu país se
acostumou a observar e seguir sem a autocrítica dos que dançam para
viver, e não vivem para dançar.
É claro que fui seduzida, é claro que nenhum

Friday, September 23, 2011

microparte de estudo pornográfico Žižzichoen I

No primeiro instante, já de pernasabertas, mandou:

- O buraco ta aí, você faz se você quiser, a escolha é tua.

Inconformado e excitado a um só tempo, que figura autoritária de pernas abertas. Hoje em dia os parâmetros tomados são outros, é preciso que se diga. As palavras já não conseguem mais abarcar tudo o que queremos extrair delas, é um esforço penoso, mas excita, e excita muito. Eu, mais uma dessas figuras autoritárias por detrás do pano ecrã tátil, hoje abaixo dos meus dedos, sinto-me muito excitada nesse instante. E devo ainda fazer aqui um apêndice: sinto-me borbulhada de todos os desejos, o buraco ta aí, já ficando torto de tesão.

O rapaz – preciso dizer aqui que se trata de um rapaz pelo aquilo que sensorialmente o corpo diz tratar-se de um rapaz, eu sei o que é um rapaz, no sentido bíblico, a problemática do gênero fica aqui poeticamente subjacente, dada uma certa incompatibilidade de gênios entre esses estudos e o correr fácil literário – avermelhado, arfava, como uma flauta prestes a ser tocada, arfava mesmo com a idéia da possibilidade como ideal, e sim, claro, foderia a moça. Há moças que necessitam muito de ser fodidas, eu, mais uma dessas figuras fodidas por aí, que sinto-me bastante fodida muitas vezes troquei o sentir pelo ser. O transcorrer, o mundo é um atulhado de instituições mortas.

Fodida e iluminada, trânsfuga e translucidamente lúcida. Ficava lúcida após o coito anal, e depois iria limpar os assoalhos!

Tuesday, September 06, 2011

Léo Glück na Edição 4 do Jornal TransNews e na Revista Viração 76!

Mais infos sobre a Edição de número 4 do Jornal Trans News clicando aqui!


Veja a Edição de número 76 da Revista Viração clicando aqui!

Friday, August 05, 2011

El Gran Cabaret Porno vem aí!

O projeto Salsichão no Boquerão/Tainha na Prainha é o deflagramento da pesquisa artística entre a Companhia Silenciosa (Curitiba – Paraná) e o Erro Grupo (Florianópolis – Santa Catarina), um processo investigativo inédito, construído a partir de compartilhamento técnico, convivencial, conceitual e artístico entre os coletivos. Os dois eixos principais da pesquisa tem como foco a presença cênica, suas possíveis mediações e extensões e suas múltiplas relações estético-políticas com as três cidades cartografadas (Florianópolis, Curitiba e São Paulo), através do uso de diversas tecnologias, e sua justaposição poética em espaços públicos e privados dessas cidades, criando, com isso, frestas, deslocamentos e rupturas no mecanicizado fluxo da malha urbana contemporânea.




El Gran Cabaret Porno - Companhia Silenciosa;
Quando: Dia 28 de agosto de 2011 às 21 horas;
Onde: Itaú Cultural - Avenida Paulista, 149 - Paraíso [próximo à Estação Brigadeiro do Metrô] - São Paulo.

Wednesday, June 15, 2011

De uma simplicidade de polaca




Houve tempos em que algumas “portas da percepção”, por serem de difícil acesso, geravam uma tal curiosidade obstinada que, somente ao delas saírem, as pessoas começaram a vislumbrar que as coisas simples da vida estavam soçobradas em um manto de informações que não as levaria a lugar algum. Hoje temos redes, teias e canais de acesso linfáticos que nos permitem uma vida asséptica, segura — segundo a sua conexão — e à distância. Mas, e o amor? Aquele amor suado de outrora, quente, cheio de cheiros e gestos e hálitos e olhos e bocas e que só aparece em sua plenitude múltipla através do toque imediato, como se num botão de pressionar algo ele estivesse: é esse o amor que eu quero para mim. Quando o abraço apertado cede, empresta, dá o corpo a qualquer desejo, que não se pode e pelo bem da humanidade não se deve controlar ou reprimir. Há no mundo um lugar onde me sinto em casa, e não é dentro de mim mesma; meu corpo é mera terapia ocupacional. Eu sonho com o nono andar de uma manhã ensolarada, o café feito na cafeteira italiana, o sonho vem da simplicidade da alma, do afastamento da realidade comezinha, mesquinha e que paulatinamente destila capitalismo tardio em nossas conjuradas veias, tão orgânicas quanto o plástico, a seda e o movimento nervoso que se nota no pêlo do rabo dos cães. Nesse meu sonho o amor é meu, puro e insano, inexplicável como só as coisas mais lindas do mundo são. Na rua em frente estão as putas usando drogas e mostrando o saco em posições exóticas, as sirenes da polícia, ou das ambulâncias, o som dos bailes onde o amor deu vez à transação financeira terrena, quando a necessidade de sobrevivência impede a dignidade humana de fluir e se estabelecer. Tenho vontade de abraçá-las e dizer que as amo, sem mentira, sem dolo, sem manha. A tecnologia humana é de longe a engenhoca mais bonita de se ver. Quando todo o resto se foi e só permaneceu o piscar de olhos, o sorriso acanhado e atraente dos desdentados, eu sonho com as mãos mais lindas que já me tocaram nessa vida, com a voz mais doce e carinhosa que já me falou ao pé do ouvido, com os tapas mais cheios de tesão que me lavraram a carne branca. Eu sonho com o que é simples, eu sonho porque o sonho nenhum sistema de software ou hardware conseguirá jamais reproduzir, eu sonho porque amo e porque o amor não é simples, não. Não é explicável, não. Não é descartável, não. Quando aparece a gente só experimenta, e vive, e tece, e alimenta, e cresce. Eu amo o sonho que sonho e a moleza que você me dá nas pernas, eu sou pequena num mundo cheio de coisas grandes e indecifráveis, como o meu corpo, o último grito da tecnologia wireless que você tem o poder de ligar apenas com o seu sorriso fino e tímido de canto de boca.

Tuesday, January 18, 2011

Marafonaria Service Room Capítolo Um


Ela pensa em dinamite. Pensa no extremo oriente. Em dois únicos cogumelos explosivos o norte e o sul, como lhe havia dito uma vez o avô desdentado: dentes de quem picota couve. Ordena ao professor que se retire, não há ali espaço para mais nenhuma explicação. O exercício acabara, toda a filosofia aflita acabara. Sim, a cueca está arreada. Por um canto a cabeça do pau mole que escapa. Contínuo, o pau da moça é róseo e combina em gradientes de cor com todas as suas mucosas corporais. Provocam encanto, fascínio, atenção redobrada e tensão. Um tapa havia estalado ali perto, na dobra mortiça, folha dourada mortuária em encantos de Morfeu. Mas ela havia se queixado da cansativa argumentação falha e espúria, porém espirituosa, coisa de quem manda, coisa de quem obedece, classes em luta e tudo o mais, o verde oliva de uns olhinhos miúdos repuxados nos cantos pela pouca idade emocional do pai que já envereda pelo ridículo. De dentro do kocsi, um dia, ali, naquela casinha de porta e muro brancos, eu serei feliz, havia dito o professor malandro, malemolente, rebolativo e um pouco bicha demais, apesar de sexualmente fluente. A rapariga, batizada pela amiga portuguesa sem bigodes, ficou sem graça, fugiu do assunto, mordeu a isca, mentiu a fita, pediu a dica e arriscou: “um dia eu já fui, sabia? espalhafatosa como eu, sempre à beira de uma certa marafonaria avançada, quase congênita e, apesar de censurada, censurável, reprimida e adorada e confundida, fui amada, sim. Em qualquer canto aí desses dos quatro do mundo, eu fui amada.” Ele não devolveu a atenção. Pagou e já estava pensando na esposa em casa, com quem tanto brigava, nas malandrices das namoradas criminosas de seu passado ingrato. Não ouvia mais sua voz, seu corpo. Pensativo e resfolegante, divertia-se com as entrelinhas burlescas da discussão sem volta. Em algum recôndito ardido de sua memória podia ouvir-se, lenta e pausadamente: “nós somos o encontro de duas tristezas”, acendeu um cigarro e fumou, como se fumando apagasse o próprio filho que cresceria sem orgulho de um pai-mãe tão repetitivo em seu papel social.

Tuesday, December 14, 2010

Calor subindo na ossuda encosta

Quero ser alçada
Colada na base cambiante de cumulus & nimbus
Raios, tormentos & trovões perpassando cada célula do meu ser indisponível & terreno
Eu sorrio no alto, cruzada, cruzeira
Em riste um dedo, na língua uma palavra úmida, babosa
Presa na chuva sem pressa de um amor possível
Esgotada de águas fronteiriças
Areias movediças & mais, além, inconstante como homem que não é senhor de si & medra na hora errada
A meia ensopada & as dobras carnais sonolentas
Doridas, lambidas & resfriadas
Para a próxima temporada eu guardarei em meus seios o colostro animado que, junto com meu púbis mordido & pelado, te fará reviver das cinzas históricas.

Sunday, November 21, 2010

Troféu Gralha Azul 2010


"REBECCA ou David Começa A Babar" - texto da atriz e dramaturga Léo Glück - encenado em junho de 2010 pela Companhia Silenciosa, é indicado ao Troféu Gralha Azul 2010 na categoria Melhor Texto Original ou Adaptado. É a primeira vez que a curitibana Companhia Silenciosa concorre ao troféu paranaense.

Tuesday, November 16, 2010

Por uma sensibilidade mais palpável ou Eu acabo de acordar tremente


"I'm not interested in how people move, but what moves them"
Pina Bausch





Não, não é com esse apreço fantasioso pelas coisas póstumas que deve-se iniciar algo. Não é com esse início oligárquico e ritualístico de introdução por via qualquer que um começo deve ser esboçado. Não é com a tardia sensação do luto digno e honroso que um início se dá nem tampouco com uma alegria de baixa e fácil satisfação terrena. O início não se dá. A introdução deverá ser mais sentida do que percebida como cognoscível ou até reproduzível. Não se encaixariam aqui feéricas sentimentalidades cristãs ou judaicas quando o que se sente é ulterior, estampado da dignidade do vento e por ele facilmente perpassável, tangível e transubstanciável. O que quero com isso é dizer dos modos cartesianos que simplesmente afrouxaram ao longo dos heroicos tempos de sobrevivência humana, perderam atributos originais em função de sua não aplicabilidade em sistemas sensíveis cuja decodificação não aparece, necessariamente, em letras ou alardes grandes, não existe como contemplação e não pode ser enquadrada por magnificentes discursos de bens e ataques atávicos. A realidade não comporta sensibilidades aguçadas e falantes, pensantes cataclismos de sua condição e carentes de pesquisa aprofundada. É do sujeitar-se ao outrar-se a temeridade do ato, da transposição de angular pedra lapidada para um canto onde - ainda que percebida - não cause mais percalços ou impeça o bom andamento de idiossincrasias cada vez menos conectadas com a percepção do outro integral, integrado em um meio dissoluto, resoluto, passivo, recalcitrante e repetitivo. Estou aqui porque perdi o útero na guerra santa, doei para não perder a graça, a causalidade de um corpo sem funcionalidade secular, porque Munja e sua sabedoria milenar me ensinaram a agradecer os feitos bons e a humanidade que ainda late em nós. Vem do olho, poderoso órgão de sentimentalidade igrejística e templária, uma piedosa subordinação de todos os conjuntos úteis e programáveis da natureza dilapidada em nós. Vem da boca uma escrita ímpia e meticulosa que vira fala facada de dosseis artimanhados por um mundo físico mais refreável e dificilmente descobrível. Munja haverá dito, por esse meu peito que arfa, pelas minhas ancas que acendem todos os fogos das olarias mais latejantes de terra, areias e holística fibra natural. Munja subscrita e capada, uma oitava mais alta na voz, mais alta que o intestino estraçalhado e repousante de boca em boca de cordeiros envoltos em lã itinerante. Ora, se me percebo distribuída, é possível que queira também compartilhar de uma fisicalidade destronável, arcaica e mutante, aberta como poros para a entrada de novos signos sensoriais, luz e sol. Tanto tempo gasto com as especializações mesquinhas que se perdeu a noção do todo, de onde surgem os regimentos e das suas reais motivações terráqueas. É preciso que entendamos que alguns de nós não estão aqui para florir, com um assombro magnânimo de beleza que dura somente até o cair de um dia, que não ultrapassa o primeiro instante de fala ou o toque intencional de sua abertura em operacional flor diamante. O que sobra de tempos em tempos é uma necessidade vitalícia de segredos e réstias de famílias enclausuradas, diametralmente opostas à real felicidade de flores que brotam que geram que parem com dor efusiva incrível e midiática mergulhada em prazeres de sangue etéreo de fiação fictícia de numerabilidade sempre binária, sempre aquilo entre o zero e o um. Eu sou pelo sentir antes de qualquer outro sentido: que venha, que rasgue, que abra e dilacere, que saia, que sofra, goste ou desgoste antes que saia em forma verbo de palavra carne morta, de olho visto enxergado enxertado distorcido e catalogado, antes que o ouvido aja por precocidade, por automatismo, nomadismo ou falta de atenção amor. Munja munida de ampolas históricas vez por outra ainda planta uma indagação em algumas bundas, ou axilas, ou partes destacáveis e defloráveis como aquilo que só os buracos feitos de carne desejam, imploram, pedem, por ajuda ou por delito, por amor ou por complacência, por prazer ou por feitio. O que fica por sentir fica para ser descrito, no devir assassinado, estripado, mal controlado e não sabido. É impuro e injusto o não sentido. Aquilo que não passa pela carne não passa pela alma não passa pela reza não passa por Deus não passa no Cosmos. Aquilo que não passa não pode ser visitado ou discutido, muito diminuto que fica o nosso leque de operações e códigos vazios da gloriosa falta de experimentação. Não carrego uma pátria sem corpo ou de corpo conjunto no coração. Carrego um corpo segregado e dissonante, os rins lustrosos e a espinha erétil de medula e osso buco animal oscilante, vertente escura das pardas raças que sorriem à noite para os outros em uma mata tão escura que é quase como se brilhasse a lua no osso, grifado com o vermelho tenro e escorregadio de uma carne que escapa à cabeça mediana, pequena, incapaz de acolher o sentimento diversificado de todos os ares que respiramos e todos os cheiros, violência, terra e merda humana. Terá ela ouvido da facticidade propícia do flerte? Que seu corpo em amor ama, esquenta e umedece e em guerra enrijece, luta e mata? Que uma mulher só escreve bem se escreve como homem? Como uma ausência patente de signos não comprimíveis constroem a realidade tátil? Os seus filhos jamais serão os meus, cujos dentes irão arreganhar-se na luta contra a falta de criação de sentidos múltiplos, intercambiantes, dissonantes e discorrentes. Se a eles lhes darei dentes, darei ventres, peles e orifícios suntuosos por onde conhecer e aprender a não se brincar com a falta que uma alma perspicaz faz em uma doce aquiescência matinal.