Wednesday, June 15, 2011

De uma simplicidade de polaca




Houve tempos em que algumas “portas da percepção”, por serem de difícil acesso, geravam uma tal curiosidade obstinada que, somente ao delas saírem, as pessoas começaram a vislumbrar que as coisas simples da vida estavam soçobradas em um manto de informações que não as levaria a lugar algum. Hoje temos redes, teias e canais de acesso linfáticos que nos permitem uma vida asséptica, segura — segundo a sua conexão — e à distância. Mas, e o amor? Aquele amor suado de outrora, quente, cheio de cheiros e gestos e hálitos e olhos e bocas e que só aparece em sua plenitude múltipla através do toque imediato, como se num botão de pressionar algo ele estivesse: é esse o amor que eu quero para mim. Quando o abraço apertado cede, empresta, dá o corpo a qualquer desejo, que não se pode e pelo bem da humanidade não se deve controlar ou reprimir. Há no mundo um lugar onde me sinto em casa, e não é dentro de mim mesma; meu corpo é mera terapia ocupacional. Eu sonho com o nono andar de uma manhã ensolarada, o café feito na cafeteira italiana, o sonho vem da simplicidade da alma, do afastamento da realidade comezinha, mesquinha e que paulatinamente destila capitalismo tardio em nossas conjuradas veias, tão orgânicas quanto o plástico, a seda e o movimento nervoso que se nota no pêlo do rabo dos cães. Nesse meu sonho o amor é meu, puro e insano, inexplicável como só as coisas mais lindas do mundo são. Na rua em frente estão as putas usando drogas e mostrando o saco em posições exóticas, as sirenes da polícia, ou das ambulâncias, o som dos bailes onde o amor deu vez à transação financeira terrena, quando a necessidade de sobrevivência impede a dignidade humana de fluir e se estabelecer. Tenho vontade de abraçá-las e dizer que as amo, sem mentira, sem dolo, sem manha. A tecnologia humana é de longe a engenhoca mais bonita de se ver. Quando todo o resto se foi e só permaneceu o piscar de olhos, o sorriso acanhado e atraente dos desdentados, eu sonho com as mãos mais lindas que já me tocaram nessa vida, com a voz mais doce e carinhosa que já me falou ao pé do ouvido, com os tapas mais cheios de tesão que me lavraram a carne branca. Eu sonho com o que é simples, eu sonho porque o sonho nenhum sistema de software ou hardware conseguirá jamais reproduzir, eu sonho porque amo e porque o amor não é simples, não. Não é explicável, não. Não é descartável, não. Quando aparece a gente só experimenta, e vive, e tece, e alimenta, e cresce. Eu amo o sonho que sonho e a moleza que você me dá nas pernas, eu sou pequena num mundo cheio de coisas grandes e indecifráveis, como o meu corpo, o último grito da tecnologia wireless que você tem o poder de ligar apenas com o seu sorriso fino e tímido de canto de boca.

Tuesday, January 18, 2011

Marafonaria Service Room Capítolo Um


Ela pensa em dinamite. Pensa no extremo oriente. Em dois únicos cogumelos explosivos o norte e o sul, como lhe havia dito uma vez o avô desdentado: dentes de quem picota couve. Ordena ao professor que se retire, não há ali espaço para mais nenhuma explicação. O exercício acabara, toda a filosofia aflita acabara. Sim, a cueca está arreada. Por um canto a cabeça do pau mole que escapa. Contínuo, o pau da moça é róseo e combina em gradientes de cor com todas as suas mucosas corporais. Provocam encanto, fascínio, atenção redobrada e tensão. Um tapa havia estalado ali perto, na dobra mortiça, folha dourada mortuária em encantos de Morfeu. Mas ela havia se queixado da cansativa argumentação falha e espúria, porém espirituosa, coisa de quem manda, coisa de quem obedece, classes em luta e tudo o mais, o verde oliva de uns olhinhos miúdos repuxados nos cantos pela pouca idade emocional do pai que já envereda pelo ridículo. De dentro do kocsi, um dia, ali, naquela casinha de porta e muro brancos, eu serei feliz, havia dito o professor malandro, malemolente, rebolativo e um pouco bicha demais, apesar de sexualmente fluente. A rapariga, batizada pela amiga portuguesa sem bigodes, ficou sem graça, fugiu do assunto, mordeu a isca, mentiu a fita, pediu a dica e arriscou: “um dia eu já fui, sabia? espalhafatosa como eu, sempre à beira de uma certa marafonaria avançada, quase congênita e, apesar de censurada, censurável, reprimida e adorada e confundida, fui amada, sim. Em qualquer canto aí desses dos quatro do mundo, eu fui amada.” Ele não devolveu a atenção. Pagou e já estava pensando na esposa em casa, com quem tanto brigava, nas malandrices das namoradas criminosas de seu passado ingrato. Não ouvia mais sua voz, seu corpo. Pensativo e resfolegante, divertia-se com as entrelinhas burlescas da discussão sem volta. Em algum recôndito ardido de sua memória podia ouvir-se, lenta e pausadamente: “nós somos o encontro de duas tristezas”, acendeu um cigarro e fumou, como se fumando apagasse o próprio filho que cresceria sem orgulho de um pai-mãe tão repetitivo em seu papel social.

Tuesday, December 14, 2010

Calor subindo na ossuda encosta

Quero ser alçada
Colada na base cambiante de cumulus & nimbus
Raios, tormentos & trovões perpassando cada célula do meu ser indisponível & terreno
Eu sorrio no alto, cruzada, cruzeira
Em riste um dedo, na língua uma palavra úmida, babosa
Presa na chuva sem pressa de um amor possível
Esgotada de águas fronteiriças
Areias movediças & mais, além, inconstante como homem que não é senhor de si & medra na hora errada
A meia ensopada & as dobras carnais sonolentas
Doridas, lambidas & resfriadas
Para a próxima temporada eu guardarei em meus seios o colostro animado que, junto com meu púbis mordido & pelado, te fará reviver das cinzas históricas.

Sunday, November 21, 2010

Troféu Gralha Azul 2010


"REBECCA ou David Começa A Babar" - texto da atriz e dramaturga Léo Glück - encenado em junho de 2010 pela Companhia Silenciosa, é indicado ao Troféu Gralha Azul 2010 na categoria Melhor Texto Original ou Adaptado. É a primeira vez que a curitibana Companhia Silenciosa concorre ao troféu paranaense.

Tuesday, November 16, 2010

Por uma sensibilidade mais palpável ou Eu acabo de acordar tremente


"I'm not interested in how people move, but what moves them"
Pina Bausch





Não, não é com esse apreço fantasioso pelas coisas póstumas que deve-se iniciar algo. Não é com esse início oligárquico e ritualístico de introdução por via qualquer que um começo deve ser esboçado. Não é com a tardia sensação do luto digno e honroso que um início se dá nem tampouco com uma alegria de baixa e fácil satisfação terrena. O início não se dá. A introdução deverá ser mais sentida do que percebida como cognoscível ou até reproduzível. Não se encaixariam aqui feéricas sentimentalidades cristãs ou judaicas quando o que se sente é ulterior, estampado da dignidade do vento e por ele facilmente perpassável, tangível e transubstanciável. O que quero com isso é dizer dos modos cartesianos que simplesmente afrouxaram ao longo dos heroicos tempos de sobrevivência humana, perderam atributos originais em função de sua não aplicabilidade em sistemas sensíveis cuja decodificação não aparece, necessariamente, em letras ou alardes grandes, não existe como contemplação e não pode ser enquadrada por magnificentes discursos de bens e ataques atávicos. A realidade não comporta sensibilidades aguçadas e falantes, pensantes cataclismos de sua condição e carentes de pesquisa aprofundada. É do sujeitar-se ao outrar-se a temeridade do ato, da transposição de angular pedra lapidada para um canto onde - ainda que percebida - não cause mais percalços ou impeça o bom andamento de idiossincrasias cada vez menos conectadas com a percepção do outro integral, integrado em um meio dissoluto, resoluto, passivo, recalcitrante e repetitivo. Estou aqui porque perdi o útero na guerra santa, doei para não perder a graça, a causalidade de um corpo sem funcionalidade secular, porque Munja e sua sabedoria milenar me ensinaram a agradecer os feitos bons e a humanidade que ainda late em nós. Vem do olho, poderoso órgão de sentimentalidade igrejística e templária, uma piedosa subordinação de todos os conjuntos úteis e programáveis da natureza dilapidada em nós. Vem da boca uma escrita ímpia e meticulosa que vira fala facada de dosseis artimanhados por um mundo físico mais refreável e dificilmente descobrível. Munja haverá dito, por esse meu peito que arfa, pelas minhas ancas que acendem todos os fogos das olarias mais latejantes de terra, areias e holística fibra natural. Munja subscrita e capada, uma oitava mais alta na voz, mais alta que o intestino estraçalhado e repousante de boca em boca de cordeiros envoltos em lã itinerante. Ora, se me percebo distribuída, é possível que queira também compartilhar de uma fisicalidade destronável, arcaica e mutante, aberta como poros para a entrada de novos signos sensoriais, luz e sol. Tanto tempo gasto com as especializações mesquinhas que se perdeu a noção do todo, de onde surgem os regimentos e das suas reais motivações terráqueas. É preciso que entendamos que alguns de nós não estão aqui para florir, com um assombro magnânimo de beleza que dura somente até o cair de um dia, que não ultrapassa o primeiro instante de fala ou o toque intencional de sua abertura em operacional flor diamante. O que sobra de tempos em tempos é uma necessidade vitalícia de segredos e réstias de famílias enclausuradas, diametralmente opostas à real felicidade de flores que brotam que geram que parem com dor efusiva incrível e midiática mergulhada em prazeres de sangue etéreo de fiação fictícia de numerabilidade sempre binária, sempre aquilo entre o zero e o um. Eu sou pelo sentir antes de qualquer outro sentido: que venha, que rasgue, que abra e dilacere, que saia, que sofra, goste ou desgoste antes que saia em forma verbo de palavra carne morta, de olho visto enxergado enxertado distorcido e catalogado, antes que o ouvido aja por precocidade, por automatismo, nomadismo ou falta de atenção amor. Munja munida de ampolas históricas vez por outra ainda planta uma indagação em algumas bundas, ou axilas, ou partes destacáveis e defloráveis como aquilo que só os buracos feitos de carne desejam, imploram, pedem, por ajuda ou por delito, por amor ou por complacência, por prazer ou por feitio. O que fica por sentir fica para ser descrito, no devir assassinado, estripado, mal controlado e não sabido. É impuro e injusto o não sentido. Aquilo que não passa pela carne não passa pela alma não passa pela reza não passa por Deus não passa no Cosmos. Aquilo que não passa não pode ser visitado ou discutido, muito diminuto que fica o nosso leque de operações e códigos vazios da gloriosa falta de experimentação. Não carrego uma pátria sem corpo ou de corpo conjunto no coração. Carrego um corpo segregado e dissonante, os rins lustrosos e a espinha erétil de medula e osso buco animal oscilante, vertente escura das pardas raças que sorriem à noite para os outros em uma mata tão escura que é quase como se brilhasse a lua no osso, grifado com o vermelho tenro e escorregadio de uma carne que escapa à cabeça mediana, pequena, incapaz de acolher o sentimento diversificado de todos os ares que respiramos e todos os cheiros, violência, terra e merda humana. Terá ela ouvido da facticidade propícia do flerte? Que seu corpo em amor ama, esquenta e umedece e em guerra enrijece, luta e mata? Que uma mulher só escreve bem se escreve como homem? Como uma ausência patente de signos não comprimíveis constroem a realidade tátil? Os seus filhos jamais serão os meus, cujos dentes irão arreganhar-se na luta contra a falta de criação de sentidos múltiplos, intercambiantes, dissonantes e discorrentes. Se a eles lhes darei dentes, darei ventres, peles e orifícios suntuosos por onde conhecer e aprender a não se brincar com a falta que uma alma perspicaz faz em uma doce aquiescência matinal.

Monday, November 08, 2010

Carta Grata Ao Indissolúvel Poder Universal Da Emancipação Moral E Financeira De Tudo Sobre Tudo Aquilo Que Julgo Sem Poder Julgar

Não obedeço mais.
Eu não sou mulher para te fazer feliz.
Eu não sou homem para te fazer feliz.
Eu não sou máquina para te fazer feliz.
Eu não fico, eu não saio daqui para te fazer feliz.
Eu acordo e o sangue já existia, o dia já ia alto, o nome, a economia internacional, a praça e os flagelados.
A alma fraca e pobre já existia, o sol, a família. O poder já existia, fundado, fundante, fundável, afundado.
Eu não sou mendiga para te fazer feliz.
Eu não sou menina para te fazer feliz.
Eu não sou mentira para te fazer feliz.
Eu não te agrido para te fazer feliz.
Eu não tenho uma mãe burra para te fazer feliz.
O meu sapato apertado, o couro engomado: eu não sou vítima para te fazer feliz. Nada em mim é para te fazer feliz.
O meu amém não é teu, é ateu, é até, é além, é por sobre o vôo inconstante dos mitos renegados, adorados e dilacerados pelo amor de um povo sórdido.
A rua não é tua, não é minha, não é de Deus, não me venha com lorotas. Eu me vesti assim hoje para viver. Somente para viver.
Eu não te roubo para te fazer feliz.
Eu não te amo para te fazer feliz.
Eu não respeito a tua opressão.
Eu não sou assim para te fazer feliz.
Eu não engulo teu sexo para te fazer feliz.
Eu não engulo a tua porra para te fazer feliz.
Eu não assino um nome civil para te fazer feliz.
Eu não me calo, eu não falo para te fazer feliz.
Eu não rio para te fazer feliz.
Eu não caso, descaso, tenho filhos, sigo rumos, persigo para te fazer feliz.
Eu não sossego o facho para te fazer feliz.

Thursday, September 16, 2010

Manifesto Inflamado Pelo Retorno Do Glamour No Teatro Curitibano


Há muito que se perderam as coisas realmente boas que envolvem a prática teatral curitibana, meldels! Do teatro crássico, por exemplo, o famoso “teatrão istóra peito”, permaneceram somente os repisados formatos caricatos de interpretação carregadésima, daquelas de explodir o peito do sujeito de emoção mesmo, de bocejosos textos canônicos e sacralizados pelo seu uso recorrente através dos tempos, indicando, com isso, também, alguma preguiça de se criar algo realmente novo e conectado com o tempo atual (uma indecorosa mania humana de se espetar a responsabilidade daquilo que está sendo dito em outra pessoa que não a que está ali, viva, na hora, para poder se defender. O Shakespeare, por exemplo, coitado, sendo montado e remontado zilhões de vezes pelos quatro cantos do mundo sem a mínima chance de discordar de nada ou expressar que aquilo ali pertence a outra fase de sua vida, fase que expressa coisas que já não sente mais ou pelo menos não daquele jeito e que ele já não está mais “nem aí”! Enfim, em outra parte eu retomo esse assunto, mas agora não é esse o foco, ô dó), porém, no entanto, em outra mão, foram-se embora costumes maravilhosos como o garboso serviço de camareiras, aquelas senhorinhas ótimas com quem se podia conversar tomando um café feitinho na hora, fresquinho, bolinho de fubá, docinhos, alguém a quem se podia pedir para ligar o rádio enquanto a gente se maquia, se arruma, se emperiquita, se perfuma, se alisa, se monta, alguém com quem a gente podia fofocar, contar os desastres íntimos e intransferíveis, falar mal das celebridades que estão em ascensão junto com você, falar das principais notícias mundiais do dia, alguém que morreu de véio ali, uma escada, um coreto, uma arquibancada que caiu na cabeça de não sei quem acolá e matou, um bando que a terra sugou, um buraco que se abriu, uma inundação em algum país pobre, um presidente ditador matando um pedaço de povo escondido, um namoradinho, um treps, uma chupadinha furtiva escondida do marido, do namorado, do empresário, do produtor, do agente, do pai, da mãe, dos filhos, alguém que enfiou a mão dentro da nossa calça sem querer, buscando alguma coisinha desejável, um pecadilho aqui, outro ali, alguém para pôr as nossas perucas em ordem, penteá-las com cuidado, enfileirar os mil tubos de maquiagem para a gente só chegar lá e usar, a nosso bel-prazer, alguém para pendurar nas araras todos os nossos figurinos, passadinhos e engomadinhos, durinhos do jeito que a gente gosta, alguém para polir nossos sapatos, alguém para nos trazer remedinho de dor de cabeça quando no dia anterior a bebedeira foi forte, ah, as camareiras! Profissão caída em desuso na contemporaneidade fugaz! J-e-s-u-i-z, quanta injustiça!!! Por mim caía tudo desse tipo de teatro, menos a camareira. A camareira eu quero de volta, eu quero a minha camareirinha!!! Fosse um time delas, melhor ainda, que aí dava para abusar mais, já baixa a diva loka e a gente já começa a pedir de tudo, sentir falta de ar, mandar abrirem e fecharem a porta sem pedir por favor, reclamar, dar ordens, destratar, mostrar quem manda naquilo tudo ali, bater no peito de punho cerrado e berrar “aqui quem sofre sou eu! Só eu! E ninguém mais fala comigo aqui, só me dirijam a palavra quando eu permitir”. Outra coisa: as grandiosíssimas estreias! Que falta fazem! Ah, coquetéis, bebidinhas, comidinhas, câmeras, luzes e safadezas, mão naquilo, aquilo na mão, só gente bonita, vistosa e bem vestida. Tapete vermelho já no asfalto, um aparato de luz igual àquele que se projeta no céu para chamar o Batman, fogos de artifício, luzes modernas piscando e girando para todos os lados, dando aquela sensação gostosa do lusco-fusco, que parece que a gente vai desequilibrar e cair a qualquer instante, no fosso gigantes orquestras de ternos brilhosos e instrumentos douradíssimos luxuosos tocando um som altíssimo, daqueles que a gente tem que gritar furiosamente para se ouvir e no dia seguinte fica todo mundo rouco, entrada livre para todo mundo, até pros mendigos da rua (eles também precisam do contacto com o glamour para sobreviver às intempéries, como não?!! Não se pode negar o glamour a ninguém nesse mundo, seria classista, elitista, burrista e petite bourgeois e isso não é nada cool e isso não é o que a gente quer, é?) e, claro, flores no final do espetáculo, muitas flores, muitas mesmo, de sufocar, espalhadas pelos camarins, em buquês entregues por homens de dentes e alturas maravilhosos, imponentes, pauzudíssimos, disponibilíssimos e, claro, burríssimos, tapadíssimos, porque os intelectuais já querem vir nessa de discutir conceito e estética da porra toda logo depois da apresentação, que coincide justamente com a hora em que o que mais você quer é retocar a maquiagem, redobrar a cola nos cílios e aumentar a voltagem do gloss (bem do tipinho para parecer que estamos vertendo águas sagradas), dissipar o espírito, dissolver a alma com alguma bebida caríssima em alguma taça caríssima de cristal oriental caríssimo ou coisa que o valha, ficar doidinha num canto só nas caras e bocas, levantando a sainha, mostrando a liga, se esfregando bem coquete num cantinho com alguma coisa ou alguém, enfim, se fazendo. Cartões de admiradores espalhados por tudo quanto é canto, todos te dizendo que te amam e como seria ótimo se nós nos conhecêssemos e aquele blá blá blá todo de quando alguém quer te comer porque você é importante, ou, no mínimo, um conjunto dócil e amplificado de buracos mucosentos ambulantes. Ah, os bons tempos!!! Ah, magnífica Hollywood dos anos 40 que nos deu tudo isso de presente, para a gente esquecer o país em desenvolvimento lerdo, o pão com ovo sofrido do mesa após mesa, a sanidade carcomida pelos delírios de quem só quer ser amada intensamente. Os fantásticos barbitúricos com que as fantasias se misturam à realidade indistinta, aqueles que nos perturbam os ensaios, as gravações, as filmagens, os horários, os elogios, o tempo, o tempo, o tempo, a gravitacional passagem do tempo, a desagregação mental, o melhor cetim, a melhor pele, o melhor cabelo, a melhor e mais bonita beldade linda maravilhosa poderosa gostosa metida e arrogante de todos os tempos! A mais influente personalidade bem falante bem vestinte bem calçante bem pitante bem prontinha para o que der e vier. Ah, não podemos esquecer dos fotógrafos! =S Jamé! Jamé podemos! Queremos em quantidades exorbitantes!!! De todas as partes do globo! Todos se acotovelando, se batendo, se agredindo, se xingando, se tirando sangue, se quebrando os dentes para tirar uma fotinho torta mal tirada da nossa cara linda e juvenil de gente louca bem sucedida, a mesma que horas depois eles bagunçam com porra quente, no cabelo, na boca, no olho (no auge do tesão sublime de tudo aquilo que foi feito artisticamente, vem aquilo quente no olho e acaba com o glamour na hora!!! e dana tudo - depois eu falo da porra no olho, porque a porra no olho é importante), ah, maravilhosos tempos que não voltam mais a essa Curitiba repetida de tudo de sempre de hoje! É inadmissível ver as pessoas por aí compondo plateias de gente maltrapilha, usando havaianas nos pés, chinelos e sandálias vão de dedo puídas, gastas, com a sola torta, pés sujos, empoeirados do dia inteiro, roupa de quem acabou de fazer trilha no mato, mochilas de acampar nas costas, tecidos grosseiros, sem caimento, jeans horrorosíssimos e repugnantes, unhas mal feitas, cabelos de quem acabou de acordar numa rain forest qualquer e foi ao teatro!!! :O É escandaloso!!! Gente sem brilho no olho, macilenta, acinzentada, gente que não comeu direito, gente cansada de viver, abatida, doente, gente que não passa um blushzinho sequer... ah, onde estão os gloriosos vestidos bufantes de tafetá com camadas e mais camadas de tule por baixo estilo Scarlett O´Hara, D-e-u-s do C-é-u!!! Onde estão as melhores grifes mundiais para calçar essa população comezinha que habita Curitiba?!? Cadê??? Cadê??? Eu fico doente com essa história! Me dá uma vontade de largar tudo e fugir pro outro lado! Por isso vai tão pouca gente ao teatro hoje em dia... Tem tão pouco apelo, tão pouco cuidado, tão pouca minúcia. Quem vai pro teatro olhar para a cara tombada dos outros, vestidos iguais ou piores que você?!! Quem quer ver a miséria odiosa que mora na ausência da suntuosidade? Melhor seria ligar a tevê no Canal Brasil!!! Há que se refletir, Curitiba, há que se refletir! Anos de civilização, apuro e beleza e o que sobra é a porra da milionésima versão do drama canastrão do Hamlet para uma plateia mal acabada mal perfumada insípida suja amarelada?

Tuesday, September 14, 2010

NÃO FUJA DA RAIA

NÃO SE DISTRAIA!






Wagner submerge ante a grossa massa do Bixiga: bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal: o minério, o mistério. Na cozinha: o vatapá, o sarapatel, o ouro e a dança. O levante que se precipitou todas as vezes que já tapamos a boca - e abafamos tantos discursos - do europeu com nossas vaginas outrora tupiniquins. Servas em chamas! É do colo de nossos patrões velhos e feios que faremos a nossa Revolução! Meigas, inexpressivas e excitantes. Quem terá coragem de calar nossa lânguida voz?


[Aos aplausos da esfuziante clown, matou a família de pernas pro ar. Heróica sucessora da raça dos bandeirantes, passa galharda uma filha de imigrante, louramente domando um automóvel!]

Celebrando, porém revestido de dorido pesar, os 50 anos da decadência do “Rebolado”, o Grupo De Investigação Cênica Heliogábalus apresenta uma série de festas homenageando as Divas brasileiras que persistiram e reinventaram esta arte.

[Cláudia Raia - Liza Minelli tropical - é a indomável égua que te convoca ao cambalacho deste sábado!]


- Sucesso aqui vou eu!

Thursday, August 26, 2010

A intenção do buraco da fechadura





"Todas as mulheres - todos os homens, mas agora quero falar de mulheres - já sentiram e sentem um momento em que são puramente sexo e pulsam sexo por todos os lados e ficam com medo de si mesmas e se descontrolam e compreendem tudo sobre sexo e querem
tudo, é uma sensação avassaladora de absoluta sexualidade, um momento em que a
sacanagem toma conta de tudo, e ela se sente fêmea, devassa, puta, ela faria tudo, tudo, ela quer foder, ela quer fazer tudo! Toda mulher que não dá a bunda sente vontade de também dar a bunda nessas horas, toda mulher que nunca deixou gozarem em sua boca sente vontade de chupar um pau até que ele esguiche forte em sua boca, toda
mulher assim limitada sai desses limites nessas horas, finge que não tem problemas.
Todas iguais. Eu quero excitar essas, quero provocar muitas trepadas, quero que
maridos, namorados e pais assustados as proíbam de ler, quero que haja gente com
vergonha de ler em público ou mesmo pedir na livraria, ah, como seria bom
acompanhar tudo isso. E não estou fazendo nada demais, a não ser contar a verdade.
É de fato inacreditável, se você for ver bem, que contar a verdade seja escandaloso,
quase subversivo, o atraso, o atraso."

Thursday, July 15, 2010

Alfa Beta Gama Letra









No reto a gostosa lembrança do escuro, vácuo existencial em ampliada plenitude
O submundo algodoado do calor que não cessa
O último grasnido do tango argentino incólume ainda na ponta dos ouvidos, a nota derradeira e intensa
A terceirização dos afetos primevos em tempos de liberdade tecnológica extrema.

No cais do porto eu me despeço do último marinheiro estrangeiro: a gravata rasgada, os sonhos de uma família dilacerados na negra tinta da tatuagem dolorida, na carne fincada feito faca forte eu me despeço.
O abraço das adúlteras chorosas pela numerosa possibilidade do amor reconstituído, cristalizado na esfera do incognoscível desejo de sonhar eternamente com algures vindouros
Te dou a sopa, te aqueço a alma fraca e te lanço pragas sutis de cozinha
Lavo a roupa, amo a decadência da mãe-pai, como a comida ressecada dos anos
E é nessa pequena notoriedade local que encontro em mim a boca que realmente quer falar sem freios, sem pejo nem maneirismos barrocos
É do amor e da guerra meu coração feito, meus sonhos arruinados e minha prole alimentada. Cedo a massa fraca que empacota meus ossos ao futuro interconectado, às prisões virtuais de quem conferiu poder à preguiça terrena e ainda assim sentiu prazer na ponta dos dedos, na ponta da língua de outrem
Sorvo cada gota dessa vida que sai de mim, que começa e termina em mim em ato único, no doce buraco fértil de terra branca que ponho à prova
Que em mim ocupa o lugar dos deuses e mitos de uma geração envenenada pela eletricidade defasada
Serei a gloriosa mãe dos teus filhos fracos.

Sunday, May 30, 2010

REBECCA estreia 10.06.2010








online processual devotion on http://www.davidefrancis.blogspot.com/

Wednesday, May 19, 2010

das vadias do sistema

A podridão exala!


Porém, seus odores fétidos são mal disfarçados com caros perfumes.
Elas - as vadias do sistema - são como viúvas elitizadas estilizadas, não esperneiam, não gritam, não ameaçam tirar a roupa em público pela liberdade que não desejam, em suma: não pensam. Apenas desfilam vestes caras e negras em corpos desprovidos de função vital alguma, trôpegas na "moral" mas muito bem calçadas (duplamente, triplamente, multiplamente, multimidiaticamente) e com caros óculos escuros e muito bem ensaiados silêncios.

As vadias podem facilmente tornar-se amigas de um vadio do sistema ou outro vadio qualquer; mas, para manter tal amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física entre ambos e de ambos para ambos.

Friday, April 23, 2010

***TORLONI´S PARTY***



Wagner submerge ante os cordões de Botafogo: bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal: o minério, o mistério. Na cozinha: o vatapá, o sarapatel, o ouro e a dança. O levante que se precipitou todas as vezes que já tapamos a boca - e abafamos tantos discursos - do europeu com nossas vaginas outrora tupiniquins. Servas em chamas! É do colo de nossos patrões velhos e feios que faremos a nossa Revolução! Meigas, inexpressivas e excitantes. Quem terá coragem de calar nossa lânguida voz?

Rio: vaudeville do mundo: besame! Besame mucho! Babilônia submersa na pornochanchada!
Celebrando, porém revestido de dorido pesar, os 50 anos da decadência do “Rebolado”, o Grupo De Investigação Cênica Heliogábalus apresenta uma série de festas homenageando as Divas brasileiras que persistiram e reinventaram esta arte. A primeira entidade que convidamos é Cristiane Torloni, em seu próprio território de Jô Penteado “A Gata Comeu”. La Torloni, diva do cinema de duvidoso e gostoso gosto nacional das décadas de 70, 80 e início de 90, te convida para o desbunde! Un poquito y nada más! Eu te amo, porra!!!





SÁBADO 24 DE ABRIL DE 2010 ÀS 23 HORAS @ "A GATA COMEU" (Rua Ubaldino do Amaral, 643. Alto da Glória - Curitiba - Paraná)

Monday, April 19, 2010

"Léo Glück: Arte e vida sempre juntos"



Confira o meu Perfil publicado hoje no Caderno G da Gazeta do Povo clicando em





E dê leite(-se) quem quiser, puder ou conseguir! ;P