Monday, June 18, 2007

Eu não sou uma boneca de borracha!


Quando meus olhos resolvem falar, meu coração se cala.

E eu quero sugar a medula do mundo!

Desenvolver novas técnicas de divulgação do amor, porque a loucura, boa marketeira, se divulga por si própria.

Sinto o feto de Deus revirar minhas entranhas, semente divina.

Mantenho a trilha florida à distância, por hora prefiro a companhia dos espinhos.

Sendo eu mesma uma bandoleira nata, obviamente que sempre ajudo na fuga dos pistoleiros.

Sangue cigano, espírito nômade, fui assassinada com seis tiros a queima-roupa.

Vivo a vida, seqüência interminável de dias recheados de confusão mental plena e apoteótica.

Mas não se pode ser uma débil mental hoje em dia, pode?

Desde quando operará a humanidade sobre matéria envelhecida?

Matéria envilecida.

Minha mediocridade morreu.

Em todas as esquinas vêem-se montes de lixo sendo atacados por gatos esqueléticos matando uma fome insaciável.

Meu quarto cheio de folhas secas, uma mulher que soluça na escuridão é uma mulher precisando de amor.

Estou sendo atacada.

Logo eu, a sertaneja!

Logo eu, cujos dentes formam a escadaria perfeita para o teu amor.

Logo eu, tão estimulada.

Eles não conseguirão me deter!!

Eu juro!!!

Continuarei a ser tua humilde criadinha, numa saga de luxúria, violação, culpa e remorso.

De vinho, terra e sangue.





Eu sou Alice.

Este território é meu.

O País só é das Maravilhas porque a referência sou eu!

Eu sou Alice, isto me basta.

Monday, June 11, 2007

PEÇA PERDÃO


Um - O que você faz agora, que meu coração está a seus pés?


Dois - Chuto?


Um - Não conseguiremos limpar a sujeira.


Dois - Disciplina e resolução. Não há mais cegueira. Talvez nem energia.


Um - Recolha a imundície quando sair.


Dois - Antes que nos denunciem.


Um Ri.


Dois - Não temos mais material para a reconstrução.


Um - Meu Deus, acabou tudo?


Dois - Acabou.

Wednesday, June 06, 2007

??????Hermenêutica??????




Do Sacrifício de Abraão ao Legado de Charles Peirce





No princípio era uma pata gigante.

E ela se fez pato.

Ela se fez cabeça.

Se fez eterna.





HERMES.
they tried to make me go to rehab and I said no no no...

Tuesday, May 29, 2007

A MAIS RECENTE LEITURA DRAMÁTICA DA COMPANHIA SILENCIOSA!

EL MURCIÉLAGO DESENFRENADO
estruendo de Léo Glück




A história da Inglaterra, como a de tantas outras terras, é um terreno intrincado de história e lenda. A história do mundo, como cartas sem poesia, como flores sem perfume e pensamentos sem imaginação, seria algo muito seco sem suas lendas; e muitas delas, embora descartadas cem vezes pelas provas, merecem ficar pelo que são.



Atenção: Este espetáculo é uma obra de mentalidade enferma.


Dia> 03 de junho de 2007.
Hora> 19.00.
Local> SESC Água Verde.
Endereço> Av. República Argentina, 944.
E-mail>
aguaverde@sescpr.com.br
Fone> (41) 3342-7577.
Info> (41)99959198/(41)84088805
companhiasilenciosa@hotmail.com

Friday, May 04, 2007

TRACK # 1 e/ou La donna è mobile





Acabo de almoçar.

Acabo de sentir mil pontadas em meu mecanicamente fragilizado coração.

Acabo de penetrar fatalmente no fantástico mundo da iluminação.

Acabo de arrancar as vestes e rasgá-las e pisoteá-las.

Acabo de destruir os dentes no trinco da porta da sala.

Acabo de tesourar meus cabelos e queimá-los no fogão.

Acabo de cindir meu pensamento.

Acabo de ver a hora e soltar um grunhido imundo.

Acabo de cair da cama.

Acabo de deixar a inveja me corroer por dentro.

Acabo de aprender desde muito cedo a não ter certezas.

Acabo de sempre desejar que alguém me beijasse os defeitos.

Acabo de chupar a pata traseira de meu felino, que não gostou nada.

Acabo de bater na vizinha.

Acabo de começar a masturbar-me. A babar pela boceta.

Acabo de deixar-te.

Acabo de deixar-me. Esvaziar-me. Esvair-me.

Acabo de deixá-lo pegar meu sexo entre as duas mãos.

E o jeito que ele pegou, tão decididamente, com tanta macheza, foi como um toque do homem das cavernas que existe em todos nós.

Acabo de me envolver.

Acabo de decidir ir a uma colônia de artistas.

Acabo de perder uma de minhas lentes de contato.

Acabo de comer mexericas velhas.

Acabo de querer ficar morena, uma bela morena do Sul.

Ricardo ficou em êxtase, agarrando-me como se fosse me quebrar, curvando-se sobre mim, com os joelhos no meio dos meus, o pênis ereto.

Meu casaco estava aberto, meu vestido era fininho, e a mão estava roçando agora levemente através do vestido bem na borda do sexo.

Não me afastei.

Fiz um leve movimento para alçar o sexo na direção dos dedos.

Senti uma onda de prazer.

Atirei as pernas por cima dos ombros dele, bem alto, de modo que ele pudesse mergulhar dentro de mim e assistir ao mesmo tempo.

Ele queria ver tudo. Queria ver como o pênis entrava e saía brilhando, firme e grande.

Ergui-me sobre os punhos para oferecer ainda mais meu sexo às investidas dele. A seguir ele me virou e colocou-se em cima de mim como um cachorro, metendo o pênis por trás, com as mãos em concha sobre meus seios pontudos, acariciando e metendo ao mesmo tempo.

Ele estava incansável.

Não gozava.

Então foi que ele começou a meter com violência, avançando comigo para o crescente e selvagem ápice do orgasmo, e aí eu dei um grito.

E ele gozou setenta mil litros do seu mais puro leite do amor dentro de mim.

Acabo de pensar que a mentira e a hipocrisia são as únicas moedas válidas em nossa sociedade.

Acabo de pensar na América sadia.

Acabo de pensar nos parcos instrumentos de Galileu e Copérnico.

Acabo de crer em Deus, meu último e mais trôpego suspiro.

Wednesday, April 25, 2007

Tuesday, April 24, 2007

PUBERDADE ADIADA


Agora, e só agora, eu a tenho.

A dura certeza de que as coisas pouco ou não faladas jamais serão resolvidas.

O amanhã não vem até que seja tarde demais.

Tento, com isso, que minha sensibilidade saia pouco ferida da batalha.

Estrada íngreme dos íngremes pensamentos, tenho, para sempre, de a percorrer.

Se a História sempre exige um seio desnudo, é o que irei fazer agora.

Por que as lágrimas sempre estão envolvidas?

Não é de bom tom beber ritualisticamente.

O dionisíaco foi banalizado por polemistas dos anos 60, que o transformaram em brincadeira e protesto.

Maconha na fila do piquete. Sexo no jardim de infância. Regressão benigna.

Mas o Grande Deus Dioniso é a barbárie e a brutalidade, um extremo de torsão que rasga, mutilação, esquartejamento, contrações uterinas, energia desenfreada, louca, rude, destrutiva.

Dioniso é o novo, emocionante: varrendo tudo para começar de novo.

Dioniso é a única saída inteligente para o pensamento. Apolo é mera embalagem.
Eu sou artista, afinal.
Eu mereço meu tempo separado, meu espaço reservado, meu espírito inflamado.
Eu mereço tudo. O que me vem. Sem amaciante.
Meu cu meu cu meu cu.

Tuesday, April 10, 2007

A FORNICADORA

parte II




De todas as minhas tardes, esta é a pior. A mais longínqua, a mais promissora, a mais lúcida. Um dó, ainda sou Diana, a açucareira. O aumento mamoplástico de Jane Fonda é, e sempre foi, inviável. Todo aumento mamoplástico é inviável. Toda Jane Fonda é inviável.
O pênis de King Kong nunca me interessou, mas por outro lado, o que me interessava era como aquilo poderia caber em sua escolhida. Roubada atrozmente.
Mas minha boca se enche de saliva cremosa quando penso na pica dura do meu marido.
Tarde repleta de pastos opacamente verdejantes e eu pensando na agressividade da vagina funcional.
Frio mortiço a me visitar os ossos e os olhos vidrados imaginando todas as suturas futuras, como filme noir.
Não nasci para ser mãe. Odiaria repetir as infâmias maternas que um dia se operaram sobre mim. Não suportaria ser odiada por um filho, e sei que o seria.
Ser mãe é ser odiada.
Fico aqui pensando nos motivos porque minha bunda é como é. Nas fotos ela parece enorme mas na vida real é mediana, ordinária, quase imperceptível apesar de bem utilizada.
Não sou uma putinha qualquer. No máximo uma hi-tech sci-fi whore compenetrada. Daquelas que gemem bem alto quando estão sendo comidas e pedem mais força, mais ardor, mais no fundo.
Quero inchar o útero gelatinoso.
Daquelas que os homens têm que tampar a boca ou esmurrar para deixar desacordadas, porque a ética da convivência social não permite o atentado atualmente, principalmente contra o pudor. Partindo da premissa de que todos, invariavelmente, detêm o pudor, é claro.
Todos, bando sórdido de robôs velhos e obsoletos. Não há nada mais patético que um robô ultrapassado.
Máquina sobrepujada, falsificação dos sentidos, dogma espúrio.
Se a estrutura da vulva possui lábios que a fecham, por que haveria um membro estranho, destituidor de prazer, de querer atravessá-los, como se rasgasse furiosamente as pesadas cortinas de veludo de um delicioso cabaré anos vinte?
E mesmo quando estou segura de mim eu surto. Porque surtar é preciso.
Comecei ontem a sentir leves dores no baixo ventre, onde, minutos antes, ele havia me tocado brutalmente.
Serei, eu também, parte louca desse mundo caduco? Degenerado.
Não é porque acabo de conhecer o amor verdadeiro que abandonarei a verdadeira loucura.
E pensar que tudo prosseguirá sem mim quando eu me tiver ido me faz querer gozar...
Gozar despudoradamente.
Na cara do mundo.
Gozar desesperadamente.
Gozar gozar gozar...
Não me banhei, sua porra ainda está em mim, colando mais e mais minha calcinha ao meu corpo. Olho para a mancha de sêmen em meus lençóis.
Estou sozinha com o sêmen.
Lembro de mil línguas afiadas e bífidas a me chuparem o rabo piscapiscante.
Meu maior problema não é o gênero. É o medo.
Me pergunto se algum dia saberei o meu lugar no planeta enquanto passo batom vermelhíssimo na xoxota.

Saturday, March 31, 2007

De Lá Para Cá

Mecânica é o que não é mais nada



DADÁ, NÃO É???????????????????????

Thursday, February 15, 2007

Sem Título

No espelho do banheiro me olhei e não me vi. Me questionei, me tomei de assalto, me pus a tentar. Unhei sua superfície, trinquei sua borda, parafraseei suas conexões. Abri a torneira e vi a água jorrar, para fora da pia, para fora da idéia, simples e indomável elemento. Enquanto tentava utilmente inserir minha insaturável língua no pequeno e tortuoso orifício da torneira, água saindo, eu pensava em como é comezinha a natureza. Que precisa ser presa para se fazer entender.
Sim, eu estava chupando o metal da torneira, a boca cheia de misturas, a cabeça – que eu não voltaria a adornar jamais – pensava em fugir. Eu sentia o borbotão, eu negava a possibilidade de calçar os pés, eu dominava o meu fraco poder de sedução interior. Sentei, no chão frio e respingado. Tirei a blusa e acariciei os seios mínimos, pendurados. De bruços já, me deixei invadir solenemente pela inércia cataclísmica dos seres. A torneira ainda aberta: a água, voluntariosa e acomodada, pingava por não lhe haverem dito para não pingar. Encharcava por baixo minha barriga nua, minha consciência nua e despudorada.
Experiência dos cometas esporádicos, eu me deixava judiar pela tangibilidade das coisas, pela confluência de todos os meus pontos suscetíveis. A água cremosa que me escorria era marrom, de sujeira, de cisternas não lavadas, de conjunção extremamente humana. Meu maior erro (o que me levará à tumba final) é ser demasiadamente humana.
É pena, mas sou demasiado humana para viver.
Não posso me sentir parte desse sistema terroso e baço, não devo pertencer a esse mundo de esquivos.
Subintrante, a água excrementosa me perpassa, me sabatina, me começa e me termina. E eu permito, passivamente, subjacentemente, com a prudência ética dos descarados. Me permito imundiciar pois é somente assim que minha pureza poderá surgir, somente assim me sentirei limpa novamente, coordenável novamente.
E foi ao dar descarga que vi uma de minhas vidas indo embora pela primeira vez.
Nessa hora não me interessa pai nem mãe, sempre irracionais, filho nem sal da terra. Distribuo, sem pejo, impaciência aos azulejos, que me compreendem e me comovem. Tento inverídica me transmutar no sabonete rosa, no estuque sulcado (pela indomável água de cima: infelizmente percebe-se o padrão), no chuveiro pouco funcional e utilitário. Não é um simples banho o que me limpa. Não é um simples beijo o que me determina feliz.
É um desejo de matar a água o que me desce pela garganta, o que lava minha louça, o que leva minhas fezes, o que dá brilho à minha pele. A pobre água, em si, é gradual urgência dos sentidos, maleável, flexível e extinguível.
Tão menor que o fogo, coitada.
No chão do banheiro, irrecorrivelmente pelada, me enfeito das porcarias que o planeta joga fora. Me enfeito de mim mesma no espelho quebrado, me enfeito do piso gelado que me acalma os nervos e o coração agitado. Gostaria, aqui, de engolir a luz. Bocal e fiação, fuselagem inerente, comandos facilmente obedecíveis. Gostaria de ser as minhas próprias necessidades, de poder cair solta e leve no lago negro das impudicícias, de manter meu rabo aberto para qualquer eventualidade de defesa.
Gostaria de ser negra como parede suja de carvão, de odiar o limpo e o belo unicamente por ser a errada, a que não se encaixa, a que carrega o desprezo. Gostaria que minha hidráulica fosse combatível, contornável e pouco certeira, que os meus membros não soubessem o que fazem.
Tenho sempre (e tive sempre) comigo algo que me enganar, ludibriar, engodar e distorcer todo e qualquer lapso meu de generosidade natural.
Mas o que é natural em mim? Possivelmente até o Deus em mim (se há) é artifício solitário de quem almeja a bênção da felicidade passageira. Sou ingênua, sim, ao somente tolerar frações de equívoca felicidade.
Mas é do que sou capaz, por hora.
Gosto de chorar no banheiro, que é o que faço sempre quando acordo, se acordo; de confundir nossas incontroláveis águas, nossas ruínas prestes a desabar, nossas vocações santificáveis de melhorar o ambiente, nosso anseio pelo reconhecimento da Terra.
Eterna água caída, derramada, injuriada e lesiva: é assim que sou, aquela que vaza, inunda e então evapora, seca. E carboniza as adjacências. Mas que fatalmente satisfaz às leis e regras de um tempo arquitetado para abrigar nossos sonhos desfeitos, mero asilo das efervescências decadentes em que nossa mente passeia sem cautela.
Se essa vida não me acompanha, deixo o bolo de carne para trás, se a alma egoísta não me acompanha, deixo-a para trás e sigo, matéria perdida no mundo. É que não admito tropeços no meio do percurso.
É que gostaria de poder jazer ao lado dos que morrem e não saem da nossa cabeça.

Friday, January 26, 2007

Atributos de minha matéria viva



Não estou cansada, apesar de não ter descansado por um segundo sequer. Da altura do meu edifício, vejo o torturante sol derreter a vida lá embaixo. E me é extremamente agradável que eu não esteja lá, sendo derretida junto, mera parte ativa da falência lenta e múltipla dos órgãos do planeta, emoldurado pelas esquadrias flácidas de minhas janelas.

Não há calor, embora haja ausência de frio. Todos os meus signos visuais estão vazios. E úmidos, e latentes. Acabo de comer e sinto fome; fome de uma era, de uma época, de um tempo, intangível e mudo. Não me sinto à vontade com nada e em nada, borbulho internamente como as águas calmas de um rio sonolento. Estou sozinha, decrépita, falida. As injúrias me deixaram. Sorrio levemente, como quem acaba de destampar uma panela cheirosa e promissora. O ar, que fatalmente me rarefaz, inunda narinas e boca com sua petulante e sagaz inexistência. Acabo de ter um orgasmo sacrílego. Pausado, etéreo e nulo. Sou estéril por convicção própria e plena, não temo a danação terrena.
Sempre adorei divulgar idéias abstratas e tolas, despreocupadas e chorosas, mas sagradas, mesmo que falsas. Nunca admiti erosivas deslealdades internas. Nunca soube receber amor de graça, nunca deixei a verdade me adentrar.
Olho a cama, desfeita. Olho o mundo. Não vejo conexão, não tenho tremores, estou calmamente perturbada. Penso nas estradas que estou pisando, nas tintas que me colorem, nas mãos que me pegam. Sinto uma falta.
Estarei longe de você, meu amor, somente durante a tarde. Mas é como se a vida entrasse em suspensão eterna, hibernando pela tua chegada, pelo teu aparecimento em meu dia, pela tua entrada em meu corpo.
Corpo único, fundível e manipulável, irrefreável em seu desejo de ser preenchido, completado, barbarizado e satisfeito.
Se não deixo Jesus penetrar em meu coração, é porque te permito — e só a você — desempenhar tamanha tarefa: não tenho no coração suficiência para ambos. Mesmo que você erre de buraco e entre por outro lado, mais material e complacente. Te deixo me insuflar a imponderável fé pela minha abertura mais macia e quente. Pela minha porta mais desejosa e límpida. Pelo meu corredor sem batentes nem corrimãos, sem qualquer resguardo, de solo brilhoso e infértil. Pelo meu mais sequioso sexo, da tua fertilizante e assertiva tentativa de me inspirar.
Ao pé de quem amo eu me deposito, meu amor.
Deixar de orar pode ser saída honrosa, e, ainda que descamada, desgostosa e desgastada, consigo perseguir a sombra de alguns ideais. Sim, já não são assim tão nítidos ou facilmente perceptíveis, mas, mesmo assim, devo a eles minha empobrecida obediência.
Implacável maturação? Lógica intransponível? Razão despossuída ou somente amor? Se não sou esperta, ao menos colonizada eu sou. Ou serei eu mesma a colonizar meus fãs subterrâneos? Amores subterrâneos? Domino o underground de mim? Sou obrigada, levada, trilhada a matar o melhor de mim?
Se volto no tempo, é por falta de amor próprio, por intermitência persistente, pela permanência do dúbio, do ambíguo em mim. Se me adio, estou confundindo as portas de emergência, as latas de lixo, as mágoas não curadas em mim.
Eu te fiz pensar que não poderia me entender, meu amor. Minhas mãos e meu coração te iludiram enquanto eu, lépida e sórdida, sorria e beijava tua língua rápida e inutilmente prazerosa. Eu chorei quando quis te fazer sorrir, gargalhei quando te vi chorar e todos os meus planos diabólicos de te monitorar os passos e a respiração foram bem sucedidos. Eu tive sorte. Posso ver em teus olhos a decepção do amor verdadeiro.
Sou vaga, eu sei. Sem objetivo, sem outra face a oferecer. Facilmente excitável, meu amor, como você: sou criança ou cão diante de quem se chacoalha o chocolate possível. O provável doce da eternidade, o infeliz amargo que nos percorre pelo atávico de nós. O limão e o açúcar ainda por vir.
Já não tenho mais venenos nem poções do mal. Sou truncada ainda mas, afinal, quem muda tanto assim?
Não desejo mais o pernicioso fim, não incito mais o total defloramento de mim. É pena eu não ter comigo aqui nenhuma barata qualquer com quem tentar irresistivelmente me comparar, é pena eu estar sem fontes, identidade e referência, fluidos e geradores de inovações. É pena as possibilidades terem morrido. É pena o amor, doído, ter nascido. É pena o globo girar mais rápido e mais imundo.
Desligada durante o processo, estou sem nome, sem data e sem fisicalidade qualificáveis. Como consigo ainda tossir?
Estou sendo inventada. Não do nada mas repaginada, aperfeiçoada, minha mecânica sendo revista, dilatada, vaporizada e talvez até poluída. Estou sendo tecida, textura redimensionada; meus bancos de dados e diretórios sendo alargados e compactados; meu espaço está crescendo; tessituras esticadas, pele repuxada e reaproveitada; todo o meu disco rígido em expansão, todo o meu disco mole pendurado, secando ao sol; em meus ossos uma camada de ferro; nos músculos uma camada de amor, deliciosamente balouçante; na cabeça, apagados os males e os benefícios antigos, você, meu amor, acompanhando todo o resto.
Não julgo a falta de amor uma carência, apenas não estou mais apta a opinar.

Wednesday, December 27, 2006

Friday, November 24, 2006

Saturday, November 04, 2006

Wednesday, October 18, 2006

Simone de Beauvoir apagou minhas virtudes

Quero fazer uma breve pausa na minha história até aqui e tentar dizer um pouco mais lúcida e coerentemente de mim. Sem subterfúgios. Não muitos, pelo menos. Cheguei a um certo ponto. Sem volta. E me ocorre que, daqui por diante, talvez o que eu realmente precise seja de mais oportunidades. Oportunidades para mostrar às pessoas como eu sou, de fato. Para dizer a elas as coisas como eu verdadeiramente as penso e vejo. De falar como eu funciono, das maravilhas e das agruras que eu trago em mim. De indicar, mais e mais, nem que através de desenhos ou pantomimas, como as pessoas me tocarem. Oportunidades, também, de perceber se posso contar com alguma reciprocidade; se as pessoas podem se mostrar como elas são, dizer o que pensam sem nenhuma distração de percurso. Tem sido tão difícil encontrar um percurso sem distração alguma. Não é que as máscaras me incomodem: de uma maneira ou de outra você acaba se acostumando. Acontece que sinto uma premência de naturalidade, em sua mais estrita e plena acepção.
Como escrever sobre isso sem passar pelas decepções? Pelos (maus) estereótipos, pelos clichês, pelos recalques? Quem não se decepciona? É ponto pacífico, então ao menos aí eu acredito que posso minimamente me fazer entender. Ultimamente tenho pensado nas inúmeras, variadas (variantes?) e inextricáveis decepções, brotando, como sufocantes e indecentemente verdes trepadeiras, de todos os lados, de onde menos eu esperaria. Eu gosto da solidão, mas nem por isso ela deixa de me apavorar.
Tenho muitas dificuldades em proceder com alguns casos de decepção. Tenho ódio, vergonha, espuma nos lábios, amor. Acredito veementemente em que só nos decepcionamos com alguém por quem sentimos algo mais profundo. Algo como o amor. Possivelmente maior como o amor. Só agora vejo que elevei alto demais o meu preço nesse mercado (para mim mesma). Por isso a decepção. Ninguém é obrigado a topar um preço tão alto e aqueles que se arriscam (arriscaram) sempre sabem como me dizer isso. Obviamente, eu sempre sei como não entender. Sempre sei como me autoembotar perfeitamente. Assumo a culpa. Mea. Toda mea.
Talvez todo o complexo, a fleuma, a glacial e calculada frieza, a persona inventada (e assumida), a franqueza excessiva, o sarcasmo cínico (quem sabe cinismo sarcástico?) somente escondam o pequeno vulcão em vias de realização: a lava preparada. Talvez venha mais amor por aí. Mais entendimento, sabedoria, compreensão, clareza (quem não quer ser entendido, aceito e amado? Atire a primeira pedra!), já que parece, ao que tudo indica, que nunca julguei orgulho e superioridade como coisas ruins. Talvez venha, com mais vontade de aparecer e de se mostrar do que nunca, a fragilidade, sempre adstrita a uma inexpugnável e invisível bolha. Eu estou mudando. Estou em busca de uma possível essência. Minha, só minha. Provavelmente a idade, a saudade (às vezes fico ridícula e melancolicamente nostálgica), os hormônios, a vista cansada, pisada e repisada.
Dizem que os poetas escrevem melhor quando estão torturados. Não há o que se escrever sobre o paraíso perfeito, só há o que se aproveitar. Um dia aprenderei o perdão. Sempre pensei que não cabia a mim dá-lo mas sempre o tive quando precisei. Aprenderei o arrependimento e como não ferir “muito” aos outros e a mim. Aprenderei e apreenderei a baixar a cabeça e dizer “eu errei, me perdoe” mesmo que isso me custe todas as artérias do corpo. Espero não demorar muito, espero poder contar com o apoio dos que me são caros. Espero saber bem me reinventar. Espero. Eu, logo eu, cuja ânsia de inserção no mundo só faz crescer e se reproduzir. Eu, que devo parar de pensar na quantidade e me concentrar na qualidade. Eu, que procuro incertamente. Eu, não tão louca quanto pareço. Eu, para mim sem preço.
Catástrofe e caos cada vez mais instaurados, mesmo que às vezes seja mais cômodo e mais confortável (e eu sei bem disso) ficar do lado dos vencidos, corroborando todos os mitos da vítima, ainda me é permitido reclamar mais um pouco. Eu me permito. Reclamar do afeto pouco, da consideração pouca, do amor pouco, de uma determinada atenção pouca. Tudo bem, a gente se acostuma. Postula. Perde. E muito pouco ganha. Meu objetivo agora é esticar esse pouco em muito e deixar de ser burra. Alguns amigos do coração, outros da mente, outros de outras partes. Uma família merecida. Uma mãe incrível, única, distante, amada. Um amor inexistente. Uma vida deliciosamente dilacerante.

Léo Glück



“Da baixa prostituição à grande hetaira, há numerosos degraus. A diferença essencial consiste em que a primeira negocia com sua pura generalidade, de modo que a concorrência a mantém num nível de vida miserável, ao passo que a segunda se esforça por se fazer reconhecer em sua singularidade: vencendo, pode aspirar a um grande destino. A beleza, o encanto, o sex-appeal são necessários, mas não bastam: é preciso que a mulher seja distinguida pela opinião. É a “estrela” a última encarnação da hetaira.
Houve sempre entre a prostituição e a arte uma passagem incerta, em virtude de se associarem de maneira equívoca a beleza e a volúpia; na verdade não é a Beleza que engendra o desejo; mas a teoria platônica do amor propõe hipócritas justificações para a lubricidade. Frinéia desnudando o seio oferece ao areópago a contemplação de uma idéia pura. A exibição de um corpo sem véu torna-se um espetáculo de arte; os “burlescos” americanos fizeram um drama ao despir-se. O “nu é casto”, afirmam os velhos que, sob a denominação de “nus artísticos”, colecionam fotografias obscenas. No bordel, o momento da “escolha” já é uma parada; ao complicar-se, têm-se os “quadros vivos”, as “poses artísticas” que se oferecem aos fregueses. A prostituta que aspira a adquirir um valor singular não se limita mais a mostrar passivamente a carne; esforça-se por mostrar talentos particulares. As “tocadoras de flauta” gregas encantavam os homens com sua música e suas danças. As Uled-Nail executam a dança do ventre, as espanholas que dançam e cantam no Barrio-Chino não fazem senão oferecer-se de maneira requintada à escolha do apreciador. É para achar “protetores” que Nana sobe ao palco. Certos music-halls, como outrora certos cafés-concerto, não passam de bordéis. Todos os ofícios em que a mulher se exibe podem ser utilizados para fins galantes. Há, sem dúvida, girls, taxi-girls, dançarinas nuas e outras, pin-ups, manequins, cantoras, que não permitem que sua vida erótica se imiscua em seu trabalho; quanto mais este implique em técnicas, invenção, mais poderá ser considerado como um fim em si; mas, freqüentemente, uma mulher que se apresenta em público para ganhar a vida é tentada a comerciar com seus encantos. Inversamente, a cortesã deseja um ofício que lhe sirva de alibi. Raras responderiam a um amigo que as chamasse “Cara artista”: “Artistas? Realmente meus amantes são muito indiscretos”.
Empregarei a palavra hetaira para designar todas as mulheres que tratam, não do corpo somente, mas também de sua pessoa como um capital a ser explorado. Sua atitude é a de oferecer-se aos sufrágios de seus admiradores, não renegar sua feminilidade passiva que a destina ao homem: dota-a de um poder mágico que lhe permite pegar os homens na armadilha de sua presença e deles alimentar-se; arrasta-os consigo em sua imanência.
As mulheres mais livres da Antiguidade grega não eram nem as matronas nem as baixas prostitutas: eram as hetairas. As cortesãs do Renascimento, as gueixas japonesas gozam de uma liberdade infinitamente maior do que suas contemporâneas. Paradoxalmente, essas mulheres que exploram ao extremo sua feminilidade criam para si uma situação quase equivalente à de um homem; partindo desse sexo que as entrega aos homens como objeto, reencontram-se como sujeitos. É na hetaira que os mitos masculinos encontram sua mais sedutora encarnação; ela é, mais do que qualquer outra, carne e consciência, ídolo, inspiradora, musa; pintores e escultores querem-na como modelo; ela alimenta os sonhos dos poetas; é nela que o intelectual explora os tesouros da “intuição” feminina; ela é mais facilmente inteligente do que a matrona, menos afetada na hipocrisia. Emergindo no mundo como sujeitos soberanos, escrevem versos ou prosa, pintam, compõem. Assim, Impéria se tornou célebre entre as cortesãs italianas. Pode acontecer também que, utilizando o homem como instrumento, ela exerça funções viris por intermédio dele: as “grandes favoritas” participaram do governo do mundo através de seus poderosos amantes.
Nenhum homem é definitivamente seu senhor. Mas elas têm a mais urgente necessidade do homem. A própria estrela, privada de apoio masculino, vê dissipar-se o seu prestígio: abandonada por Orson Welles, foi com um ar doentio de órfã que Rita Hayworth deambulou pela Europa antes de encontrar Ali Khan. A mais bela de todas nunca tem certeza do dia seguinte, porque suas armas são mágicas e a magia é caprichosa; a beleza é uma preocupação, um tesouro frágil; a hetaira depende estreitamente de seu corpo que o tempo impiedosamente degrada.
Mas, em conjunto, a atitude da hetaira tem analogias com a do aventureiro; como este, ela se encontra muitas vezes a meio caminho entre a seriedade e a aventura propriamente dita, ela visa a valores feitos, convencionais: dinheiro, glória; mas dá ao fato de os conquistar tanta importância quanto a própria posse; e, finalmente, o valor supremo a seus olhos é seu êxito subjetivo. Justifica, ela também, esse individualismo por um niilismo mais ou menos sistemático, mas vivido com tanto maior convicção quanto é hostil aos homens e vê inimigas nas outras mulheres. Se é bastante inteligente para sentir a necessidade de uma justificação moral, invocará um nietzscheísmo mais ou menos bem assimilado; afirmará o direito do ser de elite sobre o vulgar. Sua pessoa apresenta-se-lhe como um tesouro cuja simples existência é um dom; de modo que, consagrando-se a si mesma, pretenderá servir a coletividade. O destino da mulher devotada ao homem é marcado pelo amor: a que explora o homem assenta no culto que rende a si mesma. Se atribui tanta importância a sua glória, não é somente por interesse econômico: procura nisso a apoteose de seu narcisismo.”

Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo - 2. A Experiência Vivida.

Saturday, August 26, 2006

A FORNICADORA


parte I




Me masturbo muito todos os dias. Até ficar inundada de suor e incapaz de continuar por causa do cansaço. Ardo e aceito quem queira me acalmar. Não procuro um indivíduo, e sim um homem.
Quero ser uma coisa de carne sobre a qual outro pode dominar: é a minha idéia de iniciativa. Estranha submissão através da qual quem domina sou eu.
Trata-se do poder da comunicabilidade. Através dos genitais que, para quem imaginava coisa diferente, podem sim expressar-se sozinhos. E muito bem. Não é só instintivo nem só animal nem só necessidade nem só pecado. É Arte. Gozar gostoso é uma arte. Na Índia os maridos transam com os amigos na sala enquanto as mulheres, solícitas, na cozinha, preparam o chá. Quem ousaria dizer que são ingênuas? Puro legado cultural. Pura Arte.
Farei uso de mim mesma como exemplo determinante. Meu nome é Diana, aquela do açúcar, mesmo que referência tardia. Sempre adorei as coisas do campo, principalmente quando se trata de vaqueiros ou peões. Na última temporada de férias, fui passar um tempo na fazenda de um tio meu, que, por ser muito rico, possui muitos funcionários em sua propriedade de longo alcance.
Desta vez eu não perdi muito tempo.
Selecionei (uma audição qualquer da vida) três de seus melhores cowboys e fomos direto para um descampado que havia ali por perto. Como eles sabiam da minha intenção, já colocaram as picas para fora e eu, safadinha e boa de boquete como sou, delas enchi minha boca. Eu era uma potranca no cio e aqueles cacetes estavam, até então, matando minha vontade de dar uma mamadinha.
O vocabulário dos homens inspira-se no vocabulário militar: o amante tem o ímpeto do soldado, seu sexo retesa-se como um arco, quando ejacula “descarrega”, é uma metralhadora, um canhão; fala de ataque, de assalto, de vitória. Há em seu ato sexual um sabor de heroísmo.
O olhar é perigo; as mãos são também uma ameaça. Fiquei de quatro (uma posição que eles conheciam muito bem) e o mais espertinho deles, o Mike, vivisseccionista do amor, cumpriu direitinho seu papel: foi logo abaixando minha calça e metendo ferro na minha ardente bucetinha. ‘Ocultação de cadáver’, me ocorria. “Está na hora do bezerro mamar!”, me disse um, sem me dar tempo de desenvolver o envilecido pensamento, enquanto o Mike se deitou pedindo para que eu cavalgasse nele. Os outros, minhas interfaces, ficaram na minha frente, com seus mastros empinados em direção do meu rosto, e eu, nada bobinha, abocanhei-os com muita volúpia; o Billy pediu para que o Mike parasse um pouco e o deixasse se divertir também. Daí virou minha bunda em sua direção e atolou seu caralho em minha xaninha paramétrica e sucosa: confesso que, dos três, a piroca do Billy é a mais sarada e que quando senti aquela tora me arregaçando pensei que não iria agüentar, que iria sucumbir. Depois foi a vez do Bred me foder inteira. Incluindo a íngreme entrada de meu coccigiano e algodoado rabo, já cansado e sem “nervo frênico”. Ele estava tão eufórico que pensei que iria broxar na hora da fodeção, mas que nada: mostrou ser um grande metelão comendo xota e cu largos, violáceos e alforriados como nenhum outro. Me pediu um sorrateiro fio-terra e eu, acabrunhada açambarcada, cedi. Enquanto o dedo não parava, aproveitei e engoli bolas e todo o resto. Ele parecia aprovar com as mais loucas caretas que o sexo imprime em nossa cara. De pau.
O cu dele era bem cheiroso!
Senti um prazer ao ser penetrada daquele jeito e não resisti. Soltei um longo gemido seguido de um delicioso gozo. Eu estava saciada mas eles ainda tinham muito o que me dar.
Comecei a chupá-los com muito frenesi, pois queria que derramassem todo o leitinho que haviam segurado para o ‘Gran Finale’. Foi bom dar uma puxadinha de saco, pois assim que eu voltar, nas próximas férias, terei certeza de que meus três machos estarão em ponto de bala me esperando.
Depois de ter recebido meu merecido banho lactante (ou será lactente?), nem sequer nos limpamos e retornamos para a casa. Cheirando a sardinha embebida em óleo. Meu querido titio perguntou se eles haviam me tratado bem, ri e disse que eles haviam sido maravilhosos e muito atenciosos anfitriões. E muito orgânicos também.
MAS VOCÊ TEM QUE TOMAR CUIDADO SIM
SIM SIM SIM SIM
BOCETA SUJA EU DIGO A ELA ESTE É MEU HOMEM
ME FODE VEM DOCINHO
Um membro nu em cada calça olha a minha carne laqueada: amar alguém não basta para apagar seus defeitos. Por isso ressinto-me da natureza por não ter sido talhada para o amor. Uma amiga sempre me repete que o que eles querem é “comer esse teu cuzão”. Não me ofendo, talvez seja sina. Talvez mito. Talvez uma grande história de amor que eu não soube perceber. Amor com o meu próprio corpo defasado e intrínseco. Um real amor de perdição. Talvez eterna parceira do crime. Talvez carimbada na fronte pelo pecado. Talvez desejo, talvez bonde. De qualquer forma, sinto-me reflorestada.

Wednesday, August 02, 2006

Ismália Relambida


Tenho sede de iluminação
Não posso mais viver terrenamente
Erros históricos me perseguem
O corpo no mar, a alma no céu
Meus pés sujos eu não os limpo
Me perdi nos piores meandros da natureza
AINDA não amo meus inimigos
INTOCÁVEL pelo desejo ainda não sou
Não vejo somente escuridão mas raramente vislumbro a luz
Todo dia a mesma crucificação
O coração humano é uma grande esperança perdida
Meu esquadrão de resgate está exausto.