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Friday, May 04, 2007

TRACK # 1 e/ou La donna è mobile





Acabo de almoçar.

Acabo de sentir mil pontadas em meu mecanicamente fragilizado coração.

Acabo de penetrar fatalmente no fantástico mundo da iluminação.

Acabo de arrancar as vestes e rasgá-las e pisoteá-las.

Acabo de destruir os dentes no trinco da porta da sala.

Acabo de tesourar meus cabelos e queimá-los no fogão.

Acabo de cindir meu pensamento.

Acabo de ver a hora e soltar um grunhido imundo.

Acabo de cair da cama.

Acabo de deixar a inveja me corroer por dentro.

Acabo de aprender desde muito cedo a não ter certezas.

Acabo de sempre desejar que alguém me beijasse os defeitos.

Acabo de chupar a pata traseira de meu felino, que não gostou nada.

Acabo de bater na vizinha.

Acabo de começar a masturbar-me. A babar pela boceta.

Acabo de deixar-te.

Acabo de deixar-me. Esvaziar-me. Esvair-me.

Acabo de deixá-lo pegar meu sexo entre as duas mãos.

E o jeito que ele pegou, tão decididamente, com tanta macheza, foi como um toque do homem das cavernas que existe em todos nós.

Acabo de me envolver.

Acabo de decidir ir a uma colônia de artistas.

Acabo de perder uma de minhas lentes de contato.

Acabo de comer mexericas velhas.

Acabo de querer ficar morena, uma bela morena do Sul.

Ricardo ficou em êxtase, agarrando-me como se fosse me quebrar, curvando-se sobre mim, com os joelhos no meio dos meus, o pênis ereto.

Meu casaco estava aberto, meu vestido era fininho, e a mão estava roçando agora levemente através do vestido bem na borda do sexo.

Não me afastei.

Fiz um leve movimento para alçar o sexo na direção dos dedos.

Senti uma onda de prazer.

Atirei as pernas por cima dos ombros dele, bem alto, de modo que ele pudesse mergulhar dentro de mim e assistir ao mesmo tempo.

Ele queria ver tudo. Queria ver como o pênis entrava e saía brilhando, firme e grande.

Ergui-me sobre os punhos para oferecer ainda mais meu sexo às investidas dele. A seguir ele me virou e colocou-se em cima de mim como um cachorro, metendo o pênis por trás, com as mãos em concha sobre meus seios pontudos, acariciando e metendo ao mesmo tempo.

Ele estava incansável.

Não gozava.

Então foi que ele começou a meter com violência, avançando comigo para o crescente e selvagem ápice do orgasmo, e aí eu dei um grito.

E ele gozou setenta mil litros do seu mais puro leite do amor dentro de mim.

Acabo de pensar que a mentira e a hipocrisia são as únicas moedas válidas em nossa sociedade.

Acabo de pensar na América sadia.

Acabo de pensar nos parcos instrumentos de Galileu e Copérnico.

Acabo de crer em Deus, meu último e mais trôpego suspiro.

Tuesday, April 10, 2007

A FORNICADORA

parte II




De todas as minhas tardes, esta é a pior. A mais longínqua, a mais promissora, a mais lúcida. Um dó, ainda sou Diana, a açucareira. O aumento mamoplástico de Jane Fonda é, e sempre foi, inviável. Todo aumento mamoplástico é inviável. Toda Jane Fonda é inviável.
O pênis de King Kong nunca me interessou, mas por outro lado, o que me interessava era como aquilo poderia caber em sua escolhida. Roubada atrozmente.
Mas minha boca se enche de saliva cremosa quando penso na pica dura do meu marido.
Tarde repleta de pastos opacamente verdejantes e eu pensando na agressividade da vagina funcional.
Frio mortiço a me visitar os ossos e os olhos vidrados imaginando todas as suturas futuras, como filme noir.
Não nasci para ser mãe. Odiaria repetir as infâmias maternas que um dia se operaram sobre mim. Não suportaria ser odiada por um filho, e sei que o seria.
Ser mãe é ser odiada.
Fico aqui pensando nos motivos porque minha bunda é como é. Nas fotos ela parece enorme mas na vida real é mediana, ordinária, quase imperceptível apesar de bem utilizada.
Não sou uma putinha qualquer. No máximo uma hi-tech sci-fi whore compenetrada. Daquelas que gemem bem alto quando estão sendo comidas e pedem mais força, mais ardor, mais no fundo.
Quero inchar o útero gelatinoso.
Daquelas que os homens têm que tampar a boca ou esmurrar para deixar desacordadas, porque a ética da convivência social não permite o atentado atualmente, principalmente contra o pudor. Partindo da premissa de que todos, invariavelmente, detêm o pudor, é claro.
Todos, bando sórdido de robôs velhos e obsoletos. Não há nada mais patético que um robô ultrapassado.
Máquina sobrepujada, falsificação dos sentidos, dogma espúrio.
Se a estrutura da vulva possui lábios que a fecham, por que haveria um membro estranho, destituidor de prazer, de querer atravessá-los, como se rasgasse furiosamente as pesadas cortinas de veludo de um delicioso cabaré anos vinte?
E mesmo quando estou segura de mim eu surto. Porque surtar é preciso.
Comecei ontem a sentir leves dores no baixo ventre, onde, minutos antes, ele havia me tocado brutalmente.
Serei, eu também, parte louca desse mundo caduco? Degenerado.
Não é porque acabo de conhecer o amor verdadeiro que abandonarei a verdadeira loucura.
E pensar que tudo prosseguirá sem mim quando eu me tiver ido me faz querer gozar...
Gozar despudoradamente.
Na cara do mundo.
Gozar desesperadamente.
Gozar gozar gozar...
Não me banhei, sua porra ainda está em mim, colando mais e mais minha calcinha ao meu corpo. Olho para a mancha de sêmen em meus lençóis.
Estou sozinha com o sêmen.
Lembro de mil línguas afiadas e bífidas a me chuparem o rabo piscapiscante.
Meu maior problema não é o gênero. É o medo.
Me pergunto se algum dia saberei o meu lugar no planeta enquanto passo batom vermelhíssimo na xoxota.