Thursday, July 15, 2010

Alfa Beta Gama Letra









No reto a gostosa lembrança do escuro, vácuo existencial em ampliada plenitude
O submundo algodoado do calor que não cessa
O último grasnido do tango argentino incólume ainda na ponta dos ouvidos, a nota derradeira e intensa
A terceirização dos afetos primevos em tempos de liberdade tecnológica extrema.

No cais do porto eu me despeço do último marinheiro estrangeiro: a gravata rasgada, os sonhos de uma família dilacerados na negra tinta da tatuagem dolorida, na carne fincada feito faca forte eu me despeço.
O abraço das adúlteras chorosas pela numerosa possibilidade do amor reconstituído, cristalizado na esfera do incognoscível desejo de sonhar eternamente com algures vindouros
Te dou a sopa, te aqueço a alma fraca e te lanço pragas sutis de cozinha
Lavo a roupa, amo a decadência da mãe-pai, como a comida ressecada dos anos
E é nessa pequena notoriedade local que encontro em mim a boca que realmente quer falar sem freios, sem pejo nem maneirismos barrocos
É do amor e da guerra meu coração feito, meus sonhos arruinados e minha prole alimentada. Cedo a massa fraca que empacota meus ossos ao futuro interconectado, às prisões virtuais de quem conferiu poder à preguiça terrena e ainda assim sentiu prazer na ponta dos dedos, na ponta da língua de outrem
Sorvo cada gota dessa vida que sai de mim, que começa e termina em mim em ato único, no doce buraco fértil de terra branca que ponho à prova
Que em mim ocupa o lugar dos deuses e mitos de uma geração envenenada pela eletricidade defasada
Serei a gloriosa mãe dos teus filhos fracos.

Sunday, May 30, 2010

REBECCA estreia 10.06.2010








online processual devotion on http://www.davidefrancis.blogspot.com/

Wednesday, May 19, 2010

das vadias do sistema

A podridão exala!


Porém, seus odores fétidos são mal disfarçados com caros perfumes.
Elas - as vadias do sistema - são como viúvas elitizadas estilizadas, não esperneiam, não gritam, não ameaçam tirar a roupa em público pela liberdade que não desejam, em suma: não pensam. Apenas desfilam vestes caras e negras em corpos desprovidos de função vital alguma, trôpegas na "moral" mas muito bem calçadas (duplamente, triplamente, multiplamente, multimidiaticamente) e com caros óculos escuros e muito bem ensaiados silêncios.

As vadias podem facilmente tornar-se amigas de um vadio do sistema ou outro vadio qualquer; mas, para manter tal amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física entre ambos e de ambos para ambos.

Friday, April 23, 2010

***TORLONI´S PARTY***



Wagner submerge ante os cordões de Botafogo: bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal: o minério, o mistério. Na cozinha: o vatapá, o sarapatel, o ouro e a dança. O levante que se precipitou todas as vezes que já tapamos a boca - e abafamos tantos discursos - do europeu com nossas vaginas outrora tupiniquins. Servas em chamas! É do colo de nossos patrões velhos e feios que faremos a nossa Revolução! Meigas, inexpressivas e excitantes. Quem terá coragem de calar nossa lânguida voz?

Rio: vaudeville do mundo: besame! Besame mucho! Babilônia submersa na pornochanchada!
Celebrando, porém revestido de dorido pesar, os 50 anos da decadência do “Rebolado”, o Grupo De Investigação Cênica Heliogábalus apresenta uma série de festas homenageando as Divas brasileiras que persistiram e reinventaram esta arte. A primeira entidade que convidamos é Cristiane Torloni, em seu próprio território de Jô Penteado “A Gata Comeu”. La Torloni, diva do cinema de duvidoso e gostoso gosto nacional das décadas de 70, 80 e início de 90, te convida para o desbunde! Un poquito y nada más! Eu te amo, porra!!!





SÁBADO 24 DE ABRIL DE 2010 ÀS 23 HORAS @ "A GATA COMEU" (Rua Ubaldino do Amaral, 643. Alto da Glória - Curitiba - Paraná)

Monday, April 19, 2010

"Léo Glück: Arte e vida sempre juntos"



Confira o meu Perfil publicado hoje no Caderno G da Gazeta do Povo clicando em





E dê leite(-se) quem quiser, puder ou conseguir! ;P

Tuesday, March 30, 2010

Overload

Para você, que não me ama, não: meu pequeno fluxo de inconsciência




Ah, essa velocidade que me mastiga as entrañas! Depois de longo período comendo na mão do destino, eu furtei os teus passos mais secretos & sigilosamente os fiz meus, com a alquimia que só a paixão furiosa pela fantástica roda do tempo nos dá. Meus clássicos eu não os queimei ainda para não esquentar o mundo. Tive respeito por me terem aquecido a alma durante muito tempo. Incluam-se aí os gélidos russos & meus brutalizados amantes irlandeses, vikings da minha carne derrotada em campo aberto. Mas quero olhar para a frente, quero o futuro, risonho & tortuoso! Quero a robótica implantada na alma, o desconhecido negro do caos & da fumaça, o amor furtivo & roubado descaradamente a outrem, a paixão meticulosa de quem cede por carência de sexo & vigor imanentes, os trejeitos inarticulados de quem não sabe o que faz com a informação, a fuselagem do mundo em decadência, a filosofia & os entorpecentes da dureza. Elétrico é o amor, que irradia tensão & voltagem em terra despreparada, tombada & protuberante, como se meu grêlo traidor tivesse crescido zilhões de vezes em poucos segundos, imitando pobremente uma estrela cadente no horizonte repetido, imantável de desejo. & eu ponho-o na tua cara tola de bicho louco cheio de tesão, & giro, & rodo, & surto, & sucumbo no gozo final, prostrada, apaixonada, pensando no filho, no marido, na louça suja, & descubro, sobrecarregada, coisa velha: um homem pode viver feliz com qualquer mulher (heterossexualidade compulsória, compulsiva, facilmente imitável & mítica, não concedendo passagem à crua realidade pós pau-xota), desde que não a ame.

Saturday, February 20, 2010

***BURLESCAS*** desembarca em São Paulo!



As ***BURLESCAS*** desembarcam em São Paulo na primeira semana de março, nos dias 5 & 12, no Kitsch Club (R. Vergueiro, 2676 - Vila Mariana)!




Não dá para perder a maior burlescagem de todos os tempos! ;P







Saturday, February 13, 2010

Prazerosas Mulheres

Belíssimas senhoras, existem muitos homens, e igualmente muitas mulheres, tão tolos, que chegam a crer com muita firmeza nisto: que é suficiente colocar-se a branca touca monacal à cabeça de uma moça, e envolver-se-lhe o corpo no negro burel, para que ela deixe de ser mulher, e não mais sinta os desejos femininos, exatamente como, ao se tornar monja, ela ficasse transformada em pedra. Sempre que, casualmente, escutam coisa contrária a esse conceito, essas pessoas ficam perturbadras, como se tivesse alguém praticado um pecado enorme contra a natureza. Aqueles que agem assim não pensam nem querem ter nenhum respeito pela própria pessoa, pois a eles a simples licença de poderem praticar o que bem entendem não é suficiente para os levar à saciedade; e igualmente não meditam nas grandes forças do ócio e da solidão irrequieta. Igualmente, muitas são as pessoas que creem, com a mesma firmeza, que a enxada e a pá, assim como a pesada alimentação e os desconfortos, impedem os apetites concupiscentes aos que trabalham na terra, tornando-os atrasadões quanto à inteligência e à astúcia; já que recebo ordem da rainha, e não fugindo aos limites impostos por ela, será agradável para mim demonstrar-lhes, mais claramente, com uma pequena novela, quão iludidas estão essas pessoas que daquele modo acreditam.

Thursday, January 14, 2010

Ah, os afetos contemporâneos que eu permito!...


Se meus arroubos falassem da falácia que por vezes enfrentam, de mundos que se entrechocam cartograficamente, pela essência do corpo, pela procura além-tédio e pela imaturidade emocional em que nosso mundo mergulhou....
Se a sensibilidade da Galáxia terminou mesmo, por que ainda o olho brilha e o coração bate mais forte quando vê ou sabe do objeto a ele conectado? Novamente a coisificação! Novamente o retorno de depositar no outro a saída e a explicação de si mesmo. Novamente o outro se foi, como, aliás, ele sempre se vai. O outro não fica, não obedece aos instintos dele próprio, não finca bandeira em terra alguma, não deixa de chorar por isso e repete indefinidamente para o infinito o padrão.
O outro sou eu e o que deixo de ser, quando gamo, quando amo e quando choro sozinha no escuro do meu quarto por ter sido rejeitada mais uma vez, por ter sido amada mais uma vez, das mesmas formas, dos mesmos modos, com as mesmas cores, mortiças ou intensas.
A inscrição das tuas legendas pagãs nas minhas carnes claras e furibundas, a minha eterna imaginação alada, a quem asas eu dei por ser filha minha e eu amá-la, goste eu disso ou não.
Se quando nos entregamos de corpo e língua à filosofia rasteira na cama, suja, de porra, merda e amor, eu te deixo pensar que é só disso que se trata, é por pertencer a uma seita veementemente criticada: a dos que ainda seguem o protocolo normalizado da paixão. Dos que ainda lançam no ar toda a improvável estabilidade da rotina cotidiana e apostam caro nas mutações da sensibilidade coletiva, afundados na inconstância das intensidades que o tempo vivido sugere.
A expansão da vida ainda me matará, penso. Mas é assim que quero morrer. Deixar o planeta embarcando na transvaloração de mim mesma, usada, abusada, talvez decaída mas completamente experimentada e substancialmente alimentada do outro e no outro que no fundo sou eu.
Ainda há novas ambiguações a entrar no caminho, ainda fomento os graus de perigo do meu desejo pela luta, do meu desejo pela impossível possibilidade de plenitude no amor e na esfera social idiotizante que muitos outros aprovam silenciosamente.
Ainda é bom sonhar com ser à prova de balas.

Tuesday, December 08, 2009

Gosto da firmeza frágil das tuas ideias ou A rotina do banheiro


As delícias que eu tive de você não entraram só na carne, meu amor.
Foi mais fundo: foi mais forte.
Eu não tenho culpa se meu corpo, como ele é apresentado ao mundo, não preenche todos os requisitos para o teu tesão.
Os meus buracos são sinceros mesmo assim.
O que eu poderia alegar em minha defesa são os argumentos do meu gênero:
Tenho que me resignar ao destino?
Tenho que me resignar à biologia tortuosa que em mim perdura?
Tenho que me adequar ao aceitável desejo de ser mulher honrosa e reprodutora?
Onde ficam as impressões sensíveis, ou a criação, a partir delas, dos sinais que constroem a linguagem?
As palavras não podem conter tudo.
Imagens e simulacros são meu desejo de ser compreendida.
E amada.
Assim como a tua lembrança - infinita - que me habita corpo, coração e mente.

Friday, October 02, 2009

Hoje, quando ele meteu - eu estava louca de tesão e quase implorava para ele entrar de uma vez - , não foi com força.
Foi suave, batendo levemente nas bordas, nas paredes internas úmidas e deixando a sensação gostosa de que ali era o lugar ideal dele: bem no meio dos meus sucos.
O meu centro reconhece prazer e amor, e estabelece automaticamente as distinções. Como se se tratasse mesmo de um humanóide histérico e mal programado, sempre planejando a junção idílica de ambos.
Quando eu penso na quantidade de homens para quem eu dei nessa vida, a historicidade minuciosa se faz necessária. A listagem dos dez mais já não importa; as melhores gozadas foram, em geral, involuntárias e nem um pouco premeditadas. Aconteceram assim: quando a decisão de alguém se abateu sobre o meu corpo e o revirou.
Nem sempre o amor veio junto, é claro. Nem sempre as minhas preferências vieram junto.
Amar ainda era algo que meu corpo estava para descobrir, mesmo que a quantidade de paus entrando e saindo já formasse uma boa torcida de futebol.
Com alguns eu gozei rápido, ligeiro, sufocando a necessidade de ser amada; outros me deram mais tempo para o balanço e o movimento se esvaía quando eu já não conseguia mais controlar as pernas. Alguns me chuparam e em sua língua eu despejei litros do meu prazer secreto recém descoberto, ainda que o amor que ali faltava não fosse percebido pelos olhos do companheiro complacente. Outros eu chupei como criança encontrando bala escondida, outros com desconfiança, outros, ainda, com medo puro.
Meu corpo veio para o deleite do mundo. Mas todo corpo vem para isso; todo corpo é igual, funcional, prático e sem rodeios. Os apêndices e buracos ficam sempre exatamente nos mesmos lugares em todo mundo.
O amor não.
O deleite maior da minha mente, aquele com o qual todo gozo se torna completo, eu só viria a conhecer muito tempo depois.

Monday, August 03, 2009


"O que é a carne? O que é esse Isso
Que recobre o osso
Este novelo liso e convulso
Esta desordem de prazer e atrito
Este caos de dor sobre o pastoso.
A carne. Não sei este Isso.


O que é o osso? Este viço luzente
Desejoso de envoltório e terra.
Luzidio rosto.
Ossos. Carne. Dois Issos sem nome."